2026-04-21

Palavras chave
mondegoO pior cego é aquele que não quer ver!
Há-que olhar para cima se quisermos debater sobre o que se passa nas planícies. Com facilidade olhamos para baixo, mas até que ponto é benéfica esta perspectiva se não apresenta soluções práticas para os problemas que sistematicamente temos que enfrentar?
Pouco adianta fazer uso de pretextos de ordem económica/ financeira, para esconder a incapacidade de resolução na raiz dos problemas. Trazer à coacção a barragem de Girabolhos como condição para resolver ou minimizar as cheias do Mondego, ainda por cima por parte daqueles que aparecem apenas quando o vento está de feição para o arrecadar dos milhões, não nos parece coisa séria e só contribuem para que os problemas não sejam resolvidos com honestidade e frontalidade. Melhor seria que se preocupassem com a capacidade de armazenamento das albufeiras, nomeadamente, a da Aguieira, em resultado do transporte de inertes a que tem vindo a ser sujeita, com especial cuidado para a presente época.
Assim como o anticiclone dos Açores é a bitola da Península Ibérica para a meteorologia, também a Serra da Estrela e tudo o que nela acontece, vai condicionar tudo o que irá passar-se a juzante, nomeadamente, nas planícies criadas pelas terras que lhe foram retiradas, em grande parte, pela incúria com que continua a ser tratada.
Os incêndios de 2022 e 2025, que afectaram uma vasta área da cabeceira da bacia hidrográfica do rio Mondego e do seu afluente Ceira, terão contribuído para as cheias nas baixas dos concelhos de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho. Não apenas pela quantidade de água que debitaram mas, acima de tudo, pela velocidade das suas águas e transporte dos muitos inertes deslocados das vertentes.
As encostas estão despidas de árvores e de manta morta, devido a grande parte da área da bacia não ter povoamentos. De facto, os poucos que existiam foram dizimados pelas chamas. Perdendo-se o efeito de esponja que se poderia gerar com este material, a velocidade e capacidade de transporte das águas pluviais, neste Inverno sobremaneira, é impressionante. Na mesma linha de pensamento, a retirada da madeira queimada deixou marcas profundas nas encostas, deixando o caminho aberto para as águas se escaparem velozmente serras abaixo até cruzarem os curso de água já saturados. São feridas irreparáveis, que se irão agravar continuamente.
Infelizmente, para dificultar a situação, deparamo-nos com uma Comunicação Social que impressiona pela maneira como publicita a Serra da Estrela. Mal o leve sinal de neve surja, é dado o alerta geral. Daí ao encerramento da estrada da Torre vão apenas umas horas para, de seguida, começar a pressão sob o Centro de Limpeza da Neve (CLN), que a acaba por limpar.
A neve que a Serra precisa que por lá permaneça muito tempo é fundida num ápice, pela azáfama das máquinas do CLN, a quem pagamos para que limpe a neve que, afinal, todos desejamos! É absurdo pagar para nos tirarem aquilo de que gostamos! Ao mesmo tempo que a neve é arrastada para as margens ou projectada para como se fossem nuvens, vão espalhando sal-gema para que o gelo não ganhe consistência na plataforma e possa causar acidentes.
Com a fundição provocada, a neve fica mais rapidamente líquida e corre velozmente pelas valetas da estrada em direcção às inúmeras linhas de água que vão alimentar o caudal do rio Mondego.
As cheias do Mondego tiveram a coincidência de ter havido, muita precipitação, dois dos maiores fogos, ausência de um bom coberto arbóreo, e de ter havido neve que, teimosamente, continuam a querer limpar. Foi muita água junta!
Mais grave do que aquilo que aconteceu é não vermos, nenhum sinal que nos dê alguma tranquilidade quanto ao futuro, adivinhando-se ciclos repetidos, senão agravados de idênticas tragédias.
Quando em 2022 escrevemos “Porque Tememos os Milhões”, tínhamos a nítida convicção de os prometidos milhões, resultantes dos prejuízos que foram avaliados, não iriam, como tem acontecido, ser aplicados no restauro do que se perdeu. Menos de 10% tinham esse destino. Os outros 90% estavam reservados para construir mais infraestruturas que só iriam causar ainda mais danos ao património natural.
Se queremos que a juzante a vida decorra com mais normalidade é necessário cuidar melhor do que existe a montante. E a montante está a Serra da Estrela, que garante uma fatia significativa de água aos portugueses e tem vindo a ser muito mal tratada.
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