Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 
Professora de Biologia

2026-04-21

Lições Alpinas para um Mondego em transbordo

Lições Alpinas para um Mondego em transbordo

 

Palavras chave

alpino  
 

Há palavras que regressam ciclicamente ao espaço público português como se fossem novidade: cheias, catástrofe, evento extremo, chuvas centenárias. Regressam sempre acompanhadas do mesmo espanto coletivo e da mesma amnésia estrutural. Como se a água, essa velha conhecida do território, tivesse subitamente enlouquecido.

No inverno de 2026, o Baixo Mondego voltou a cumprir o ritual antigo: campos agrícolas transformados em espelhos castanhos, populações evacuadas, prejuízos a somarem-se como se fossem inevitáveis. A A1 interrompida pelo colapso de um pilar (Público, 2026), por onde circulam cerca de 45 mil veículos por dia (Infraestruturas de Portugal, 2024), tornou-se a imagem perfeita de um país que constrói como se a água fosse um detalhe de projeto. E, no meio da aflição, surgiu a solução que Portugal mais aprecia: betão. Mais uma barragem. A de Girabolhos, no Alto Mondego, reapresentada como se fosse a chave da arca perdida.

Convém, porém, descer da retórica à aritmética. Mesmo os estudos mais favoráveis indicam que a Barragem de Girabolhos representaria cerca de 15% da capacidade total do caudal do Mondego. Poderia ajudar? Sim. Regular sazonalmente, reforçar abastecimentos, produzir energia. Resolver estruturalmente o problema das cheias? Não. E persistir nessa crença é confundir uma peça do sistema com o sistema inteiro (Agência Portuguesa do Ambiente [APA], 2016). A obsessão portuguesa por soluções únicas para problemas complexos é, aliás, uma tradição tão sólida como as nossas pontes romanas, com a diferença de que estas ainda resistem às intempéries.

Em 2025, no FutureForum Alps, no Liechtenstein, onde representei a Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE), discutia-se precisamente o que aqui parece subversivo: a água não se gere apenas com engenharia hidráulica; gere-se com território. O tema era claro e quase pedagógico: H2O – precious, powerful, scarce. Cientistas, decisores e gestores debatiam aquilo que a ciência vem dizendo há anos: as alterações climáticas estão a intensificar extremos hidrológicos, mais secas prolongadas, mais cheias rápidas, maior variabilidade (Intergovernmental Panel on Climate Change [IPCC], 2021).

Legenda: Discussão técnica no terreno sobre soluções de gestão do risco de cheias no vale do Reno (Liechtenstein). Especialistas analisam in situ esquemas e mapas do projeto de reabilitação dos diques do Reno, debatendo diferentes opções de engenharia hidráulica e planeamento territorial. A leitura conjunta de perfis transversais, cenários de caudal e propostas de alargamento do leito ilustra uma abordagem participada e baseada em evidência científica para aumentar a segurança face a cheias extremas, conciliando proteção civil, funcionamento ecológico do rio e uso sustentável do território.

No vale do Reno, um dos rios mais regularizados da Europa, discutia-se algo que, em Portugal, ainda soa quase herético: a necessidade de devolver espaço ao rio. Apesar de décadas de engenharia hidráulica, os países alpinos reconhecem hoje que a regularização excessiva agravou riscos ambientais. Por isso, debatia-se o alargamento das faixas florestais ribeirinhas de 500 para 1000 metros, mesmo à custa de solos agrícolas. Não por ideologia, mas por evidência científica: campos agrícolas junto aos rios têm baixa capacidade de infiltração e aceleram a escorrência superficial, promovendo cheias rápidas e violentas (European Environment Agency [EEA], 2020).

Legenda: Atravessando a floresta ripícola para chegar ao leito do rio Reno.

 

Legenda: Margem direita do Reno, regularizado. Pode ver-se a floresta ripícola a ladear o rio. Argumentava-se a necessidade de ampliar esta área florestal, reduzindo a área agrícola.

 

Legenda: Perspectiva do Reno para jusante, onde se pode constatar a enorme extensão de floresta ripícola.

As florestas, pelo contrário, são infraestruturas silenciosas. Retêm, infiltram, atrasam. Funcionam como esponjas ecológicas que amortecem extremos. Isto não é poesia ambiental; é hidrologia elementar, confirmada por décadas de investigação sobre a relação entre cobertura florestal e regulação hídrica (Food and Agriculture Organization [FAO], 2018; Schumm, 2005).
E aqui chegamos ao ponto que raramente entra no debate público português: os problemas que se expressam a jusante começam sempre a montante.

Os enormes caudais que hoje se agigantam no Mondego nascem na montanha. Nascem na Serra da Estrela, onde décadas de incêndios recorrentes devastaram a floresta, empobreceram o solo e destruíram a sua capacidade de infiltração. Onde antes havia raízes, húmus e retenção, há agora cinza, compactação e escorrência rápida. A água já não entra na terra, corre à superfície, soma-se, acelera e desce.

Quando chega ao Baixo Mondego, já vem com pressa.

A ASE tem insistido, com a teimosia própria de quem conhece o território palmo a palmo, que a floresta da montanha não é um cenário turístico, é infraestrutura ecológica crítica. As campanhas de florestação, as ações de sensibilização, o trabalho paciente no terreno não são gestos simbólicos: são intervenções estruturais na bacia hidrográfica. Sem floresta a montante, qualquer barragem a jusante será sempre uma meia-medida.

O que os Alpes assumem com frontalidade e que a estratégia europeia de adaptação climática sublinha de forma inequívoca, é que a gestão da água exige visão integrada da bacia, do cume à foz (European Commission, 2021). A compartimentação administrativa é inimiga declarada do ciclo hidrológico. A água ignora fronteiras concelhias e calendários eleitorais.

Legenda: Esquemas apresentados no local. Variantes de reabilitação e reforço dos diques do rio Reno (Liechtenstein). Esquema técnico do projeto Rheindammsanierung que apresenta diferentes soluções de engenharia para a segurança contra cheias: (a) parede estanque central no dique (Schmaldihtwand), (b) filtro drenante no lado terrestre (landseitiger Auflastfilter), (c) combinações de soluções estruturais, e (d) alargamento do leito do rio (Flussaufweitung), permitindo maior espaço de escoamento. O conjunto ilustra a abordagem integrada adotada no Liechtenstein, combinando reforço de infraestruturas com soluções que aumentam a capacidade hidráulica e reduzem o risco de inundação a jusante.

 

Legenda: Evolução da capacidade hidráulica do rio Reno no Liechtenstein.
Esquema comparativo entre o estado antigo (1954) e o estado atual do leito e dos diques do Reno, evidenciando o aumento da capacidade de escoamento e a redução do risco de cheias. O diagrama mostra os diferentes níveis de cheia (HQ), os caudais máximos associados (m³/s) e as intervenções realizadas, nomeadamente a modificação do perfil do leito e o reforço/elevação dos diques. Estas medidas hidráulicas e hidromorfológicas permitiram melhorar significativamente a segurança contra inundações ao longo do tempo.

O que os Alpes compreenderam e Portugal continua a adiar, é que a gestão da água exige uma visão integrada da bacia hidrográfica, do cume à foz. As cheias do Mondego em fevereiro de 2026 não são uma fatalidade meteorológica isolada. São a materialização concreta daquilo que a ciência vem alertando há anos: eventos extremos tornar-se-ão mais frequentes, mais intensos e mais destrutivos se continuarmos a gerir o território como se o clima fosse estável.

A pergunta, portanto, não é se precisamos de mais barragens. É se estamos dispostos a reordenar o uso do solo, restaurar florestas, ampliar zonas de inundação natural, ouvir a evidência científica e agir antes do próximo inverno mediático.

Países pequenos como o Liechtenstein demonstram que literacia territorial não depende da dimensão geográfica, mas da coragem política.

Em Portugal, continuamos a preferir inaugurar obras visíveis a investir em soluções invisíveis. O betão corta fitas; a floresta cresce devagar e não dá palco.

Mas a água tem memória. E uma pedagogia implacável.

Mais cedo ou mais tarde, cobra, sempre a jusante, o preço do que destruímos a montante.

Elsa Salzedas
Licenciatura em Biologia – via ensino, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Kelly O’Hara
Professora auxiliar, Departamento de Ciências do Desporto, Universidade da Beira Interior

 
 

 
 
 
 

Comente o artigo

0 Comentários


Contactos | Ficha técnica | Política de privacidade

© 2026 Revista Zimbro

hosted by dominios.pt

Siga-nos

 

vote for this article