Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-04-21

É mais fácil culpar a Tempestade

É mais fácil culpar a Tempestade

 

Palavras chave

tempestade  tempo  
 

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” Bertolt Brecht

 

Os sinais têm sido muitos e acompanham-nos desde que a relação do homem com a natureza, e com as actividades agrícolas, se perdeu. Não estamos a falar de há muito tempo, apenas de algumas décadas, em que se começou a dar mais valor ao ter, que ao fazer. Tudo está a andar demasiado rápido, quando a natureza tem o seu tempo e essa não tem a mesma pressa que nós. Uma interessante questão a que deveríamos tentar responder – Afinal, porque temos pressa?

Milhares de anos de usufruto da natureza através dos seus cursos de água que criaram, e continuam a criar, os aluviões, áreas úteis para a nossa sobrevivência, a perderem-se num ápice. De facto, deixámos de nos relacionar com as regras que não conseguimos cumprir e as consequências batem à porta, prevendo-se piores se não acautelarmos o futuro das gerações mais jovens e das que virão.

O estado a que chegou o leito do rio Zêzere, apenas para referir o troço entre a ponte Filipina, em Valhelhas, e a Relva da Reboleira, é aterrador e deve fazer-nos reflectir. De nada vale encontrar desculpas como as tempestades para justificar o estado em que se encontram as suas margens, bem assim como os prejuízos que todos iremos pagar para reparar as infraestruturas danificadas.

A dinâmica dos rios é impressionante, frequentemente, pregando-nos partidas quando procuramos contrariá-las. O assoreamento dos rios, nomeadamente do rio Zêzere, no curso de água que atrás referimos, tem sido sujeito a práticas de extracção, sem qualquer controlo ou acompanhento técnico cujo resultado não podia ser mais trágico do que aquele que as imagens documentam.

Do rio, têm vindo, sistematicamente, a extrair gogos, areia, tudo aquilo que as suas águas transportam tendo como destino, fundamentalmente a construção. Mas houve uma exploração de inertes, há umas três décadas, que foi de uma irresponsabilidade tal que deixou o leito tão frágil que qualquer pessoas com um mínimo de saber sobre como funcionam os rios iria advinhar as consequências.

Em vez de se procurarem regularizar as margens e estabilizá-las, antes de extrair qualquer material, o que fizeram foi permitir a exploração até ao tutano, de dezenas de milhares de metros cúbicos, semanas seguidas, giratórias dentro do leito, camions com 30 m3 de gogos e areia, num vai vem, que nem a noite fazia parar.

A fiscalização, inexistente deu para fazer o que se quis e o que se quis foi explorar ao máximo, procurando as margens onde o material mais fino se encontrava depositado, o que tem mais valor. O material que ficou já não deu para reparar as margens. Também pouco importou porque ninguém o veio fazer.

Os invernos foram entrando nas margens mais frágeis, destruindo a galeira rípicola, já de si fragilizada por falta de manutenção e fiscalização.

Quando os campos eram cultivados e estes marginavam com o rio, houve o cuidado de respeitar a largura suficiente para as suas águas correrem e proteger as terras com gogos armados com malha de ferro. A galeria rípicola marginava as águas e tudo funcionava em absoluta harmonia.

O desiquilibrio, da ausência de regras e os abusos permitidos, deixaram, definitivamente os donos dos terrenos mais pobres, com menos solo arável, de boa qualidade.

O pontão da praia fluvial de Valhelhas, ficou com um dos pilares sem apoio, sendo necessário deitar pedras para aguentar o resto para evitar a sua queda. O parque de campismo, construido em RAN e leito de cheia, levou um rombo com a vedação destruída e parte do parque levado pelas águas. A conduta do esgoto para a ETAR de Valhelhas, quase que ia sendo destruída, ficando exposta, na zona de Vale de Amoreira. Há mais locais onde vai ser necessária atenção porque mais ano menos ano, o problema irá repetir-se.

Temos todas as razões para não acreditar que algo vai mudar.

Provem-nos que estamos errados!

 
 

 
 
 
 

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