Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-03-06

Uma solução para o troço da EN232 entre Manteigas e a Pousada de São Lourenço

Uma solução para o troço da EN232 entre Manteigas e a Pousada de São Lourenço

 

Palavras chave

estradas  
 

No 20 de Fevereiro de 2026, a ASE deu início à actividade invernal anual de montanha, o ASESTRELA. Numa tentativa de garantir as condições necessárias de suporte e segurança aos participantes, a manhã que antecedeu a actividade foi passada a cortar árvores tombadas ao longo das estradas, caídas na sequência das intempéries que têm assolado a Serra da Estrela, remontando ainda às consequências do incêndio de 2022.
A passagem por Manteigas naquela manhã, porém, alertou-nos para algo fora do vulgar: uma coloração acastanhada no rio Zêzere, que dava sinais de um aparente atentado à natureza. Influenciados pelo que já tem vindo a ocorrer em situações anteriores, aquando de desaterros, por exemplo, e sem possibilidade de averiguar a origem daquele cenário pelo compromisso com a actividade, a ASE acreditou que a tonalidade do rio conferida pelo saibro poderia tratar-se não mais que uma imprudência cuja irresponsabilidade de terceiros poderia estar a afectar o estado do rio. Constatámos, posteriormente, que não era tão simples assim.
Fotografia da autoria do associado Sigurd Matos.

Fotografia da autoria do associado Sigurd Matos.

Ao final desse dia, pelo que havia sido publicado nas redes sociais, descobrimos tratar-se, afinal, de uma derrocada na encosta da Carvalheira, um cenário que evidenciava grande complexidade.
Findo o ASESTRELA, e já com a estrada encerrada, a ASE pôde, então, dirigir-se ao local para, na primeira pessoa, analisar a gravidade da situação. Uma coisa era certa: a resolução do trânsito pela EN 232 seria uma situação de difícil solução dada a instabilidade da vertente e iminência de a mesma poder continuar a ruir.
Como resultado da visita ao local, a Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela enviou, a 23 de Fevereiro de 2026, uma carta ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Manteigas, Flávio Massano, dando conta da observação que tivemos oportunidade de fazer, o local onde sugerimos intervenção e o que deveria ser feito no imediato:
1 – Nivelar as bermas da estrada de São Sebastião até ao Ribas com tout-venan, um material de construção versátil, procurando, assim, promover uma melhor circulação e evitando acidentes.
2 – Explorar a situação da estrada de Campo Romão até à Cruz das Jogadas, através da aplicação de tout-venant ou solo-cimento, permitindo a circulação de viaturas pesadas por este acesso.
No mesmo sentido, enviámos, na mesma data, uma carta ao Presidente da Infraestruturas de Portugal, S. A. (IP), Miguel Cruz, sobre a necessidade de normalizar a circulação viária, através das alternativas que diligenciámos ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Manteigas.
No nosso entendimento, a condição de normalização da rodovia pelo mesmo traçado não constitui uma hipótese credível e o segundo deslizamento que se verificou a meio do dia 3 de Março de 2026 veio, precisamente, confirmar a posição da nossa Associação.
Como resultado destas observações, compreendemos agora que a solução para a estrada como resposta à ocorrência da derrocada passará pela alteração do traçado actual, partindo do desenvolvimento de um novo trajecto para a EN 232.
Com o propósito de contribuir com as opções que consideramos mais adequadas, trabalhámos com empenho na proposta que aqui apresentamos.

 

UMA SOLUÇÃO PARA O TROÇO DA EN 232, ENTRE MANTEIGAS E A POUSADA DE SÃO LOURENÇO

Bem cedo, na manhã do dia 20 de Fevereiro de 2026, a coloração das águas do rio Zêzere alertaram-nos para algo que julgávamos tratar-se de uma situação de atentado de algum desaterro, à semelhança do que tem acontecido outrora noutras ocasiões. A urgência na organização de uma actividade que iria ter início na mesma tarde foi motivo para não procurarmos a fonte de onde vinha o saibro que dava cor às águas do rio. Não obstante, a ASE alertou para o que tinha presenciado nessa manhã.

No dia 19 de Fevereiro de 2026, de acordo com informações que tomámos por fidedignas, na véspera ao que observámos no rio, 230 metros a jusante da EN 232, onde ocorreu a derrocada (40°24’34.72″N – 7°33’2.72″W), era já visível um pequeno deslizamento de terra, sinal que precedeu o que se viria a passar nos dias seguintes.

A encosta da Carvalheira, área envolvente ao colapso da estrada e respectiva derrocada, tem vindo a ser sujeita a algumas intervenções para a captação de águas para o Município de Manteigas. Todavia, nem sempre estas intervenções têm merecido a devida atenção e cuidado, nomeadamente, no que concerne à orientação das águas sobrantes para a linha de água, em vez de correrem naturalmente pela encosta, como antes se verificava. A abertura de caminhos é um reflexo do que tem vindo a ser feito na região, numa lógica de “capataz à frente, bulldozer atrás”, que em nada dignifica uma intervenção competente e estruturada. Pelo contrário, as construções e aberturas de estradas mais recentes revelam que na Serra da Estrela, de facto, os levantamentos topográficos são coisas do passado.

A notícia do ocorrido depressa chegou à nossa Associação. O local da derrocada, na encosta da Carvalheira, veio clarificar a análise prematura da ASE quanto à origem da coloração do rio nos dias anteriores.

No dia 23 de Fevereiro de 2026, procedemos a uma visita ao local e, em resultado das análises que pudemos realizar, dirigimos uma carta ao dia seguinte, 24 de Fevereiro de 2026 ao Presidente das Infraestruturas de Portugal S. A. Miguel Cruz. Nela, dávamos nota das nossas apreensões e da necessidade de se procurar uma solução alternativa célere para os automobilistas. Com o mesmo objectivo, foi também enviada uma carta para o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Manteigas Flávio Massano.

O agravamento da derrocada, então ocorrida no dia 3 de Março de 2026 durante a hora do almoço, bem como o encerramento da estrada florestal, veio tornar mais clara a necessidade de uma solução actual e futura para a EN 232.

Face à complexidade do que verificámos na primeira visita, consideramos ser de extrema importância uma solução que possa restabelecer o tráfego nesta via e minimizar os riscos de perda para a população de Manteigas. Ainda que os custos para o Município de Manteigas sejam inerentes ao encerramento da EN 232, maiores serão os danos quanto maior for o tempo de decisão quanto à sua reparação.

A Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela conta com um conhecimento vasto de actuação na área da Serra da Estrela, que acreditamos ser um contributo importante para a melhor e mais duradoura solução para a presente rodovia. Sem o mínimo rigor técnico-científico que a realidade do local exige, apresentamos aquela que nos parece ser a solução mais viável para o cenário que se criou, com base no conhecimento que dotamos da Serra da Estrela, em geral, e da Carvalheira, em particular.

 

ANÁLISE DA SITUAÇÃO

A encosta da Carvalheira já teve oportunidade de deixar a sua marca trágica para Manteigas, num historial que, inclusive, justificou a presença dos Serviços Florestais no Município, manifestando a necessidade de intervenção no local. Entre os diversos prejuízos causados, destacamos o aluvião de 1804, cuja corrente arrastou casas, destruiu propriedades e causou a morte de várias pessoas.

Na primeira década de 1900, para corrigir a situação, os Serviços Florestais começaram a intervir nesta vertente, construindo barragens (muros de estabilização e contenção das vertentes) e plantado árvores. A espécie de árvores introduzida foi a Pseudotsuga menziesii, por se tratar de uma planta de crescimento rápido e pudesse responder de forma célere ao problema que se apresentava na época. Porém, actualmente, outras espécies poderiam ser equacionadas, numa tentativa de cumprir a função de combater o processo erosivo, estabilizar a encosta e aumentar a biodiversidade na área em foco.

Desde o início do século XX, após a intervenção dos Serviços Florestais, não houve registo de derrocadas na encosta da Carvalheira. De facto, e justamente no local onde se deu o recente aluvião, Manteigas realizou duas captações de água há várias décadas para explorar os recursos hídricos para o abastecimento público da Vila.

A quantidade de fissuras encontradas no local, ora na estrada, ora entre os dois lances da mesma, e cujos registos, aliás, fizemos questão de enviar juntamente com a carta anteriormente endereçada à Infraestruturas de Portugal – IP, era já motivo de apreensão e revelava a grande instabilidade de toda a zona envolvente que colocava em causa a garantia de suporte e segurança da EN 232.

Em face do exposto, a ASE defende que a resolução do restabelecimento do trânsito na EN 232 será de difícil solução no presente troço que se conhece desta via.

 

ALTERAÇÃO AO TRAÇADO DA EN 232

Tendo em consideração a análise exposta, o problema poderá ser resolvido pela alteração do traçado da EN 232, evitando, assim, a continuidade desta via pela vertente da Carvalheira, dada a instabilidade da mesma, bem como a dificuldade inerente à sua regularização.

A estabilização da encosta irá merecer da nossa Associação um outro foco, bem como eventuais sugestões para a sua normalização. No actual contexto, a estabilidade da área da derrocada não deverá ser prioritária, devendo essa atenção ser canalizada para o conjunto de soluções afectas à EN 232 e que poderão passar pela alteração ao seu traçado actual.

Assim sendo, e tomando por base o conhecimento que detemos da encosta por onde se desenvolve a estrada em causa, existe a possibilidade de alteração do traçado, invertendo o mesmo para nascente ao quilómetro 53, procurando a direcção do caminho de Campo Romão.

Efectivamente, é na recta das proximidades do quilómetro 53 da EN 232 que a vertente evidencia uma inclinação pouco acentuada, reunindo condições para dar uma outra orientação à estrada. No sentido Este (nascente), torna-se possível alcançar o caminho rural de Campo Romão e, dali, confluir de novo com a EN 232, imediatamente após o edifício da Pousada de São Lourenço. Este último lance da estrada e o caminho de Campo Romão correspondem a uma das vertentes com menos inclinação, o que justifica a pertinência deste local. No entanto, apenas com o apoio adicional de uma cartografia pormenorizada e com o respectivo levantamento topográfico poderão criar-se as reais expectativas para a elaboração da presente proposta.

O local aqui proposto pela ASE para o novo traçado distingue-se pelo sistema hidrológico, aparentemente mais estável por comparação à zona da Carvalheira. Denotamos que nas imagens anexas há uma diferença entre o local assinalado ao quilómetro 53, uma vez que o ponto exacto do início de alteração ao traçado deverá ficar à consideração dos técnicos responsáveis.

O comprimento do troço que propomos terá uma distância de 2.400 metros, menos cerca de 1.000 metros que a actual estrada entre os dois pontos de confluência. Isto é, os desenhos das imagens apresentadas em anexo poderão não oferecer a realidade da inclinação ideal da via, uma vez que propomos a redução da distância em 1000 metros. Acreditamos, contudo, que esta inclinação constitua um prejuízo menor. Nos Anexos 1, 2 e 3, respectivamente, encontram-se desenhados os traçados numa carta militar à escala 1:25.000, uma imagem do Google Earth e uma fotografia da encosta em questão, numa tentativa de ilustrar as sugestões de onde se poderá desenvolver o nó de continuidade para o novo troço.

Qualquer outra alternativa, nomeadamente, a do caminho Municipal do Covão da Ponte até à Cruz das Jogadas, não oferece garantias de poder ser intervencionada, dada a vertente da encosta que torna o seu alargamento difícil além dos níveis de segurança serem agravados perante a possibilidade dessa intervenção.

Esperamos com as presentes sugestões poder possibilitar aos técnicos envolvidos e à Infraestruturas de Portugal S. A. o empenho para uma solução que possibilite tanto a resolução da situação criada pela derrocada da Carvalheira como a melhoria da restante estrada até à Vila de Manteigas com a brevidade possível.

Anexo 1

Anexo 1

Anexo 2

Anexo 2

Anexo 3

Anexo 3

 
 

 
 
 
 

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