Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-02-11

Tempestade Kristin: As árvores mais perigosas numa tempestade

Tempestade Kristin: As árvores mais perigosas numa tempestade

 

Palavras chave

tempestade  
 

Dificilmente o público que não reside nas áreas mais afectadas dos distritos de Leiria e Coimbra ou que por aí não passou se aperceberá do impacto surreal da passagem desta tempestade. Habitações praticamente inabitáveis, empresas parcial ou totalmente destruídas, estradas cortadas por árvores de grande porte impedindo a circulação e o socorro, veículos esmagados, energia, água e comunicações inexistentes durante dias a fio.

Muito para além do drama de quem ficou sem teto, trabalho ou carro, este fenómeno impôs situações de vida ou morte chocantes – uma incapacidade em pedir socorro em qualquer situação de urgência pelo corte das comunicações e das estradas, um perigo de morte através da queda e projeção de estruturas e um aumento dos acidentes.

Como uma parte significativa dos estragos foi causado pela queda de árvores, devemos repensar seriamente não só o ordenamento florestal mas também a presença (indispensável) das árvores na cidade e nas interfaces urbano-rurais.

Lado a lado com os destroços urbanos arrastados e projetados por toda a parte testemunhamos também um drama natural – pinhais e florestadas devastadas, alguns bosques praticamente por completo, com pinhos (ou pinheiros) cortados a meio pela força do vento e ceifados a eito.

Mais que nunca, o público geral compreende que as alterações climáticas vieram para ficar e que os efeitos das catástrofes impõem cada vez mais respeito, quer seja no Verão com os mega incêndios quer com no Inverno ou na Primavera com as tempestades extremas.

Neste contexto, e numa altura em que uma parte enorme das árvores desapareceu da noite para o dia em cidades, zonais rurais e florestas, é urgente repensarmos que tipo de árvores podem e não ser plantadas e onde. Não o fazer, implica a repetição do problema no futuro com consequências mortais, quotidianas e económicas tão ou (provavelmente) mais graves.

Enquanto bombeiro na Batalha, tive de dedicar muitas horas ao corte de árvores tombadas e partidas desde a passagem da tempestade para desbloquear as estradas, libertar infraestruturas energéticas presas e resolver a queda de árvores sobre habitações.

Curiosamente, ao longo de vários dias e quilómetros um padrão repetiu-se – as árvores problemáticas eram na esmagadora maioria as mesmas:

– Ciprestes

– Pinhos (ou pinheiros)

– Eucaliptos

Ocorreram ainda quedas graves de folhosas de muito grande porte – sobreiros, tílias e choupos sobretudo.

Ainda assim, claramente o grosso do problema prende-se com as coníferas e os eucaliptos. A explicação do mesmo é bastante clara – para além de se tratarem de espécies de crescimento rápido e porte bastante verticalizado, tratam-se de árvores perenifólias (ou seja não perdem as agulhas ou folhas no Outono/Inverno). Ora, quando o vento forte por elas passa, as agulhas e folhas abundantes oferecem resistência à passagem violenta do ar exercendo forças enormes sobre os ramos e troncos que cedem e provocam a queda repentina da árvore, a quebra do tronco a meio e/ou a projeção de ramos a longa distância.

No caso das caducifólias (as que perdem as folhas ou agulhas) o vento violento atravessa a árvore sem tanta resistência, conseguindo passar entre os ramos nus com maior facilidade e originando menos quedas de árvores e projeções de ramos.

Verificou-se portanto que as árvores que menos danos provocaram foram:

– os carvalhos

– os medronheiros de pequeno porte

– as folhosas caducifólias decorativas (áceres, magnólias, abrunheiros etc.).

Obviamente, perante a força imparável de um fenómeno extremo da natureza, nenhuma árvore oferece garantias de segurança e resistência às condições violentas. No entanto, se confinarmos os pinhos, ciprestes, eucaliptos e as árvores de grande porte (plátanos, tílias, choupos) a zonas com um afastamento superior a duas vezes a altura previsível da árvore das zonas urbanas, das bordas das estradas e caminhos de ferro e em redor dos edifícios para darmos primazia a espécies caducifólias de pequeno porte, então conseguiremos mudar completamente o cenário depois da passagem de uma tal tempestade – menos morte, menos destruição, acessos menos bloqueados ou mais rápidos de libertar, menos viaturas esmagadas, menos habitações inabitáveis e menos empresas destruídas.

Pelo contrário, se insistirmos em deixar as espécies problemáticas dominar as zonas de risco, ou pior, se as voltarmos a plantar em tais zonas, estamos a colocar-nos no caminho da repetição ou pioria dos prejuízos.

 

A relação entre estas tempestades e os incêndios no futuro – como as árvores nos podem ajudar a prevenir tragédias.

Para além dos estragos actuais, teremos de contar com condições piores para a proliferação dos mega-incêndios no Verão – a quantidade inédita de árvores caídas, ramos secos e restolho nas interfaces urbano-rurais faz com que haja mais combustível e mais continuidade para favorecer o comportamento extremo do fogo.

Deixo portanto um alerta importante quanto ao que podemos esperar dos próximos Verões – uma situação particularmente explosiva nos locais onde ocorreu queda e cortes de árvores.

Felizmente, no planeamento arbóreo de que falámos no ponto anterior, a prevenção de incêndios alinha-se bastante bem com a prevenção de estragos maiores em caso de tempestades – repare se como a presença das folhosas caducifólias e a eliminação das espécies altamente combustíveis como pinhos e eucaliptos nos garante maior segurança em ambos os casos.

Vale portanto a pena pensar antes de agir, pois a limpeza de árvores e espécies invasoras assim como a reflorestação adequada dos locais destruídos será determinante para a nossa segurança e a dos nossos filhos no futuro.

Com pequenos gestos e pequenas diferenças agora, conhecendo as árvores, prevenimos mortes, destruição e prejuízos insuportáveis amanhã

 
 

 
 
 
 

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