2025-11-21

Palavras chave
tecnologiaLima et al., citado por Pinto T. (2017), referiu que o principal desafio nos dias de hoje é ajustar a iluminação pública às necessidades das pessoas:
“An unpolluted that allows the enjoyment and contemplation of the firmament should be considered an inalienable right equivalent to all other socio-cultural and environmental rights. Hence the progressive degradation of the night sky must be regarded as a fundamental loss (…) The intelligent use of artificial lighting that minimizes sky glow and avoids obtrusive visual impact on both humans and wildfire needs to be promoted. This
strategy would involve a more efficient use of energy as to meet the wider commitments made on climate change, and for the protection of the environment”.
Destacamos o tema da iluminação pública por consideramos a sua importância demasiado valiosa.
Recentemente, a nível a mundial, tem-se verificado um movimento em defesa dos direitos de acesso visual ao corpo celeste. As últimas décadas têm-se marcado pela expansão de iluminação eléctrica em todo o mundo e, particularmente na Serra da Estrela, tem-se assistido a esta expansão mesmo a cotas mais elevadas, incluindo o topo. Veja-se, por exemplo, o Parque Natural da Serra da Estrela, que não esteve à altura de resistir à também tentação da Região de Turismo da Serra da Estrela.
As dinâmicas subjacentes ao movimento mundial supramencionado regem-se por preocupações e convicções que têm proporcionado o desenvolvimento da tecnologia neste âmbito e que a mesma seja aplicada de forma mais direccionada e, por isso, inteligente. Isto é, a implementação de novos instrumentos de iluminação tem permitido que a luz se concentre no solo, evitando a sua polarização na direcção dos astros, ao contrário do que sucedia antigamente nas zonas urbanas, com a maioria dos postes de iluminação em forma de globo, que irradiava luz em todas as direcções.
IMAGEM “ilustração iluminação eléctrica_corpo do texto”
Ainda assim, o aumento da população a viver em zonas urbanas tem causado a privação do acesso à visibilidade do corpo celeste, tanto que a iluminação pública nas cidades, todas sem excepção (e cada vez mais nas aldeias rurais), fez despertar os cidadãos para a necessidade de reclamar o direito ao universo observável. As preocupações deste movimento de cidadãos, que um pouco por todo o mundo tem apelado a esta necessidade, foram ecoando através das múltiplas iniciativas que têm conseguido mobilizar. Desta forma, têm promovido o surgimento de novas tecnologias associadas à iluminação, que permitem diminuir o fluxo de luz direccionada para o espaço e, pelo contrário, focá-las no sentido do solo, possibilitando, por isso, mais visibilidade das particularidades do céu nocturno.
Não é por acaso que nas áreas urbanas de montanha o edificado é menos disperso e mais concentrado, motivado por um conjunto de realidades que se prendem com a sobrevivência de quem lá habita. Este cenário pode ser explicado, nomeadamente, pela escassez de solo agrícola, segurança das pessoas face às intempéries e por uma questão de inter-dependência característica das zonas de montanha.
A iluminação pública instalada em povoados de montanha está directamente associada ao seu ambiente, à luz da chama mais acolhedora e aconchegante, agregadora do calor humano a que o frio das montanhas tantas vezes apela. Para isso, muito têm contribuído a iluminação quente dos LEDs (luz amarelada), cuja temperatura varia entre os 2700 e os 3000K, enquanto a luz LED fria (luz branca) tem uma temperatura de cerca de 6.500K, com um ambiente mais azulado. Na prática, a primeira facilita a envolvência com a noite e a escuridão, enquanto a segunda procura fazer da noite, dia.
Existe uma tendência para aplicar a iluminação pública de luz quente em povoações de montanha. Entre os vários motivos, destaca-se o facto de serem mais amigas do ambiente e mais interessantes do ponto de vista estético, enquadrando-se melhor nas noites tradicionais de montanha.
Ambiente de Segurança e Bem-estar: A luz quente provoca uma atmosfera de maior tranquilidade, de bem-estar e relaxamento físico mais confortável, o que é preferido para áreas residenciais e de lazer, além da iluminação pública, precisamente, pela sensação acolhedora que causa nas pessoas, enquanto a luz fria é, frequentemente, associada a áreas de trabalho ou de maiores necessidades de concentração.
A Relação com a Paisagem: O tom amarelado, ou âmbar, da luz quente harmoniza-se melhor com a paisagem natural e rural das montanhas, menos intrusivo, respeitando a privacidade, contrariamente à percepção de uma certa artificialidade causada pela luz fria.
Diminuição da Poluição Luminosa: Os comprimentos de onda da iluminação quente dispersam-se menos na atmosfera, o que não acontece no caso da luz fria (que tem comprimentos de onda curtos, como o azul). Em áreas de montanha, isto é, de extrema importância para a preservação dos seus ecossistemas e para a visibilidade do céu nocturno.
Impacto na Saúde Humana e Fauna Silvestre: Como já foi referido, a luz fria, que procura tornar noite em dia com ondas de luz de tons brancos ou azuis, pode interferir com os ciclos de sono (suprimindo a melatonina) de humanos e animais, e perturbar a vida selvagem que tem muito mais actividade no período nocturno, enquanto a luz quente minimiza estes efeitos.
O ser humano, com a ganância de se achar dono do mundo, procura a sua “comodidade”, desprezando e reduzindo cada vez mais os habitats dos outros animais, ignorando que com esta atitude põe em causa também o seu. Cada vez mais, não menosprezemos isto, se estão a reduzir as condições de sobrevivência da fauna quer pela redução dos seus territórios, quer pelas alterações que provocamos nos mesmos.
A Eficiência das Novas Tecnologias: No passado, utilizavam-se lâmpadas de sódio de alta pressão, High Pressure Sodium, alimentadas por um plasma de vapor de sódio para gerar iluminação, emitindo luz quente. Hoje em dia, soluções LED de luz quente são energeticamente mais eficientes e com ganhos económicos a longo-prazo.
Ao contrário do que se possa imaginar, um poste de luz junto a uma habitação isolada, assim como os postes que nos levam até lá, permite ao ladrão maior familiaridade com o local, enquanto a ausência de luz favoreceria quem lá vive e melhor conhece a sua habituação. Avançar com a iluminação pública como se de numa frente de combate se tratasse, não traz ganhos nem benefícios. Não queiramos conquistar o mundo e todos os seus recantos. Os animais caçam e são caçados durante a noite. Estão adaptados. Iluminar aproxima-nos de um tipo de destruição discreta do mais belo que nos rodeia. As estrelas, os animais, os caminhos. Luminosidade não é sinónimo de segurança e destruir o pouco que ainda resta dos espaços não urbanizados é senão significado de regressão civilizacional.
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