Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-10-07

Uma Grande Lição para os Silvicultores Portugueses

Uma Grande Lição para os Silvicultores Portugueses

 

Palavras chave

 

Introdução

Enquanto se idolatra o eucaliptal e se mantêm os pinhais, há países onde há excesso de produção de madeira, sem recorrer a espécies de crescimento rápido.

E já se deu ‘o passo seguinte’: Põem-se de parte áreas de mata sem intervenção, onde o ecossistema florestal se pode desenvolver na sua plenitude.

 

Comparação com Portugal

Embora seja um acérrimo defensor do extermínio do eucaliptal europeu, este texto não trata desse assunto. 

Em Portugal apostou-se na produção de madeira de crescimento rápido (eucalipto) para alimentar uma indústria de celulose / pasta de papel. É uma indústria lucrativa e com mercado dentro e fora do nosso país; mas é uma indústria que emprega relativamente poucas pessoas. As plantações de eucalipto são monoculturas sem valor ecológico, são extremamente combustíveis em caso de incêndio, são plantas que não pertencem à comunidade biológica europeia. A partir da segunda ou terceira rotação de abate – ou após um incêndio – o eucalipto cria rebentos da raíz e a plantação torna-se um emaranhado de troncos. Quase impenetrável.

Nos países nórdicos também há uma forte indústria de madeira (veja-se o exemplo da IKEA e semelhantes). Em vez de plantar árvores exóticas, de crescimento rápido, utilizaram-se as árvores autóctones – a faia na Dinamarca, o pinheiro e o abeto na Suécia e Finlândia. São árvores de crescimento lento, mas essa lentidão é compensada pela quantidade de árvores e pela boa gestão das florestas.

A Finlândia e a Suécia têm mais de 70% da sua área coberta por floresta. A Suécia tem 28 milhões de hectares de floresta, 22,5 de floresta de exploração. Na Finlândia os valores são 26,3 e 22,5 milhões de hectares, e na Noruega 13 milhões e 7 milhões de hectares, respectivamente! Portugal tem 3,2 milhões de hectares de floresta, 800.000 ha de eucalipto e 700.000 de pinheiro.

Apesar desta diferença de áreas, a indústria madeireira na Suécia (incluíndo a extracção e fabricação, tanto de papel como de mobiliário) emprega apróx. 80.000 pessoas. Em Portugal, o sector da madeira (incluíndo a extracção, papel, mobíliário e cortiça) emprega ca. 115.000 pessoas.

O conceito de exploração florestal é completamente diferente:

  • Em Portugal planta-se 10 ha de eucalipto para se ter madeira para fazer papel após 7 ou 8 anos. Metade da área plantada arde antes do prazo e a outra metade fica inutilizável para maquinaria passados 15 ou 20 anos.
  • Nos países nórdicos planta-se 100 ha de faia ou abeto para se ter madeira para mobiliário após 90 a 120 anos. Com boa gestão silvícola, tira-se rendimento em várias fases intermédias, não há incêndios florestais sistemáticos, fazem-se plantações de repovoamento e há um corte anual de árvores que dá uma quantidade de madeira superior ao eucaliptal português. Madeira de qualidade superior.

Os países nórdicos sempre foram exportadores de madeira. Com a industrialização, a produção é trabalhada e vendida como mobília e papel.A Dinamarca tem condições propícias para a agricultura e há muitos anos que investe nesse sector; assim, apenas tem 643.000 ha de floresta, 95% é explorada economicamente. A Dinamarca satisfaz 21% da sua necessidade de madeira, o resto é importado.  Apesar disso, há algumas décadas que se começou a reconverter plantações de faia para plantações de carvalho, para exploração silvícola. O tempo de maturação da plantação de carvalho é de 120 a 150 anos…

 

Um novo conceito: A floresta intocada

Devido ao excesso de produção e indo ao encontro das normas europeias sobre renaturalização, há algumas pequenas áreas de floresta, onde a intervenção se limita à observação e acompanhamento.

Visitei uma área florestal onde não há exploração há cerca de 100 anos.

Segundo os dados oficiais dinamarqueses sobre o local, pertence a uma instituição privada de ensino na cidade de Sorø fundada em 1162 com um convento cisterciense. A extensão total da área florestal é de 19 ha. Deixou de haver intervenção silvícola / exploração por volta de 1920. As árvores vivas mais antigas têm aproximadamente 400 anos. Estudos do solo e análises aos espectros polínicos mostram que o local tem coberto florestal contínuo há pelo menos 6.000 anos.

A cobertura do solo pelo estrato arbóreo é total em quase todos os sítios na mata. Há algumas clareiras resultantes de quedas de árvores, mas as árvores vizinhas acabam por cobrir o solo.

A espécie predominante, resultado da silvicultura tradicional dinamarquesa, é a faia (Fagus sylvatica). Vêm-se muitos carvalhos (Quercus robur) e amieiros (Alnus glutinosa) e alguns freixos (Fraxinus excelsior), ulmeiros (Ulmus glabra) e esporadicamente alguns bordos (Acer platanoides) e tília (Tilia platyphyllos). A grande predominância da faia resulta de ter sido, durante muitos anos, a árvore de eleição dos parques e matas dinamarquesas. O seu crescimento relativamente rápido e a sua lenha direita e compacta fazem desta espécie uma boa opção para a indústria madeireira. Quase se tornou uma árvore exclusiva da floresta dinamarquesa, no sentido de ser a única espécie nas plantações de exploração. Só em anos recentes se começou a ‘experimentar’, com abeto-do-pacífico (Pseudotsuga menziezii) e carvalho roble (Quercus robur), espécie nativa.

Na floresta primitiva, haveria uma variedade maior, com co-dominância de carvalho, tília e faia, e alguns freixos e bordos, como árvores sub-dominantes. Como não há montanhas nem elevações significativas na Dinamarca (e, consequentemente, as condições climáticas também são bastante homogéneas ao longo do reduzido território daquele país), as condições do solo e a proximidade aos corpos de água – lagos, pântanos e ribeiros – são os principais factores que determinam a composição da floresta. Há assim solos mais argilosos, compactos, outros arenosos, menos frequentes. Nas elevações a drenagem é mais facilitada, nas depressões a água tende a acumular-se e algumas árvores não subsistem em terrenos encharcados (caso da tília), enquanto outras até preferem os solos encharcados (caso do amieiro e o ulmeiro).

 

Características

Esta floresta ainda mantém algumas características da mata de exploração, com a predominância da faia, das copas altas e estreitas na procura pela luz, resultante do espaçamento pequeno entre as árvores na exploração.

Nota-se a convergência altimétrica das copas – ainda não há árvores que sobressaem nem clareiras suficientemente amplas para alterar significativamente o ambiente fótico e térmico da mata.

Nota-se também a ausência completa de espécies arbóreas de sub-bosque – as árvores que na floresta primitiva crescem na sombra das árvores dominantes e criam um estrato intermédio: tais como a aveleira (Corylus avellana), o teixo (Taxus baccata), o azevinho (Ilex aquifolium), o sanguinho (Frangula alnus), o azereiro (Prunus padus) e o sabugueiro (Sambucus nigra), entre outros.

Curiosamente, são todas espécies que já existiram nos vales superiores da Serra da Estrela, antes da destruição da floresta pelo machado e pelo fogo.

De salientar a nossa observação de uma orquídea durante o nosso passeio na floresta – a heleborina (Epipactis helleborine). Já não estava em floração, mas foi possível identificar e determinar a espécie. As orquídeas são sempre especiais, especialmente as selvagens / autóctones…

Há uma característica, onde esta floresta se distingue das demais. Como não se faz a tradicional ‘limpeza’, os troncos caídos deixam-se no local a apodrecer. São um elemento significativo na paisagem do solo florestal. 

Algumas árvores terão sido tombadas por ventanias e caíram inteiras, com a raíz.

Outras árvores, que se partiram por velhice deixam o tronco em pé.

Há grandes troncos caídos em vários estados de decomposição. É um paraíso para os decompositores da madeira, tanto dos animais e, sobretudo, dos fungos. Estudos aqui e em outras áreas florestais mostram que os fungos e os outros decompositores da madeira têm uma importância para o bom funcionamento do ecossistema florestal muito maior do que anteriormente se julgava possível…

Os fungos criam hífas, pequenos filamentos que crescem dentro do solo das florestas como uma rede que suporta a transmissão de nutrientes e informações sobre o clima e as estações do ano, sobre alterações no ecossistema, e sobre a saúde das árvores.

Alguns fungos criam associações simbióticas com as árvores – absorvem micro-nutrientes do solo e entregam-nos às árvores, que por sua vez cedem celulose e água aos fungos. A estes fungos dá-se o nome de micorrizas. Muitos destes fungos associam-se a determinadas espécies, os carvalhos (por serem a árvore mais vulgar da floresta europeia (na floresta primária, não na floresta actual…) são a espécie que tem mais associações com fungos micorrizantes. Casos documentados na Península Ibérica demonstram mais de 250 espécies em uma só árvore, enquanto as outras árvores têm muito menos; menos de 100 espécies (Alas-Gutierres, N., e outros (2026).

Outros fungos, os decompositores, entram nos tecidos mortos e decompõem as folhas, os ramos e até os troncos. Estes não entram na troca de nutrientes com as árvores vivas. Chamam-se fungos saprofíticos.

Os fungos são absolutamente essenciais para o bom funcionamento dos ecossistemas florestais, na  decomposição e disponibilização de nutrientes no solo e na sua absorção pelas árvores vivas.

Se as condições actuais se mantiverem, esta pequena floresta poderá continuar a desenvolver-se com condições particulares. A grande massa de madeira morta é uma característica muito saudável que deve ser mantida.

Será desejável acrescentar as espécies arbóreas de sub-bosque para equilibrar o ambiente florestal e a ecologia da floresta. Já questionámos a entidade responsável pela gestão da mata, pela ausência de árvores de sub-bosque.

 

Perspectivas para o caso português

Como será expectável que a agricultura continue a diminuir a exigência de produção e, logo a área disponível para florestas e para renaturalização tenderá a aumentar. Neste contexto, a pequena floresta que visitei poderá continuar a ser uma floresta sem exploração. Num cenário ideal até poderá ser um berçário para dispersão de um ecossistema florestal mais saudável que as monoculturas florestais que ainda predominam na Dinamarca.

Note-se que estas monoculturas são florestas de árvores autóctones e pirófugas ( = que resistem ao fogo).

Em Portugal já se começou a reconhecer as vantagens da renaturização. O caso mais emblemático será porventura o do projecto da ‘Rewilding Europe’ do corredor do Vale do Côa. Abrange 120.000 ha e liga a Serra da Malcata ao Parque do Douro Internacional. Inclui a introdução do cavalo Garrano, a  expansão do Grifo e reintrodução do Abutre-preto e do Lince Ibérico.

Há outras áreas protegidas, mas em nenhuma se tentou reverter a natureza do estado de ‘abandono pelos humanos’ para um estado de equilíbrio como existia antes dos humanos terem usado, abusado e abandonado…

Na Dinamarca esta pequena floresta parece-me um caso pouco conhecido, mas muito interessante. Faltam alguns pormenores, mas é um caso-de-estudo para vigiar, para seguir e imitar.

 

Referências:

Alas-Gutiérrez, N., Cagigal, E.FM., Pérez-Girón, J.C. et al.: Fungal diversity in Atlantic oak root systems: a pioneering study in the Cantabrian Mountains. Mycol. Progress 25, 7 (2026). https://doi.org/10.1007/s11557-025-02119-7 .

https://naturstyrelsen.dk/vildere-natur/uroert-skov/faktaark-for-uroerte-skove-og-skove-til-biodiversitetsformaal  (página em dinamarquês, do Ministério do Ambiente, sobre as florestas intocadas e para a biodiversidade)

 
 

 
 
 
 

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