Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-10-07

Esclarecimentos sobre as recentes campanhas de promoção do eucalipto

Esclarecimentos sobre as recentes campanhas de promoção  do eucalipto

 

Palavras chave

 

Esclarecimentos sobre as recentes campanhas de promoção do eucalipto

Têm-se visto nas redes sociais mas também nos meios rurais campanhas enganadoras de desculpabilização e promoção do Eucalipto. Este artigo não pretende diabolizar nem defender, nem sequer favorecer um dos lados da questão mas sim apresentar informação urgente ao público para melhor entender a discussão sobre o eucaliptal e os incêndios em Portugal e para que não se deixe induzir em erro pela difusão de informação tendenciosa.

Desde tentativas de criar uma imagem “verde” do eucalipto como fazendo parte de um oásis nacional diverso e produtor de oxigénio a promessas de lucro rápido e fácil ao plantar esta espécie, são diversificadas as técnicas de promoção da espécie invasora.

O contexto: de onde vem a guerra entre os pró e os contra-eucaliptos.

Depois do séc. XX, o Eucalipto ganhou uma expansão e uma dominância na paisagem portuguesa extraordinárias.

Esta árvore foi importada da Austrália e plantada aqui como espécie exótica, não pertencendo ao território português ou sequer ao continente europeu.

Já que o eucalipto é de rápido crescimento e de baixa exigência no que toca ao tipo de solo e ao clima local, tornou-se atrativo para obter rendimentos florestais mais rápidos.

Mais tarde, o desenvolvimento das indústrias da celulose e do papel, cujo impacto atual na economia nacional é importante, a plantação massiva e desregulada desta espécie afigurou-se como uma espécie de mina de ouro para os proprietários de terrenos e trabalhadores do setor da madeira.

A essa visão popular, associaram-se as características invasoras e agressivas do eucalipto – a planta produz substâncias que eliminam muita da concorrência em termos de flora e fauna e o seu crescimento e reprodução rápidos favorecem a sua supremacia fora do normal.

Assim, poucas décadas depois do início do boom do eucaliptal, a espécie invasora cresceu descontroladamente em Portugal para se tornar na 2a árvore mais presente a seguir aos pinhos (ou pinheiros) – segundo o próprio ICNF1, estima-se que os eucaliptos perfaçam já cerca de 26% das árvores do país, o que pode parecer reduzido se não comparado aos pinhos ou pinheiros que perfazem 28% e dos sobreiros que perfazem apenas 22% e que concluem assim o pódio.

Os alarmes começaram a soar após as tragédias dos incêndios de 2017 (em que morreram 114 pessoas). De facto, o Pinho e o Eucalipto dominavam as paisagens da região de Pedrógão Grande e potenciaram o comportamento extremo do fogo, como notado pelo especialista Alemão Alexander Held2.

Anos depois de várias chamadas de atenção para o perigo da árvore invasora, várias campanhas de promoção e desculpabilização do Eucalipto têm circulado, provavelmente com o propósito de perpetuar uma indústria que aparentemente se focou numa só espécie pelo lucro mais rápido.

Afinal qual a verdadeira relação do eucalipto com os grandes incêndios?

Todas as árvores são mais ou menos inflamáveis dependendo das condições às quais são submetidas.

Ainda assim, o Eucalipto possui características excepcionais que propiciam um comportamento extremo do fogo mais do que nenhuma outra árvore com presença significativa no nosso território:

  1. produz uma grande quantidade de óleos altamente inflamáveis entrando em combustão com imensa facilidade e violência;
  2. produz uma casca fina que cobre o tronco da base até à copa e que se desprende do mesmo, inflamando-se muito facilmente e permitindo uma continuidade de combustível do solo até à copa da árvore, pelo que o fogo tem muito mais facilidade em se tornar num incêndio de copas;
  1. os pedaços dessa casca que se desprendem formam um acumulado de combustível no solo que facilmente voa quando está incandescente, criando incêndios de projeção capazes de criar ignições a vários km de distância chegando mesmo a atravessar grandes rios.

Há que dizer que o Eucalipto não entra em combustão espontânea sem uma fonte de energia externa, portanto não podemos reduzir todas as culpas dos incêndios a esta árvore.

Para além disso, um dos principais problemas apontados pelas comissões criadas para analisar os grandes incêndios é o facto de grande parte dos espaços naturais afectados não ser devidamente limpo e cuidado, podendo o mato desregulado e o pinhal espesso criar um habitat propício aos incêndios incontroláveis ainda que não exista eucalipto no mesmo.

Não obstante, não podemos ignorar ou omitir as características excepcionais desta espécie perante o fogo e o seu envolvimento em muitos dos incêndios mais graves no nosso país. A estas, temos ainda de somar o seu impacto nefasto nos eco-sistemas nacionais.

Cabe relembrar que toda a base da vida vem do solo, já que todos os produtos alimentares provêm direta ou indiretamente da agricultura e dos espaços naturais. Tudo o que comemos tem a sua originem no solo e na flora (que alimenta depois a fauna).

Ao compactuar com a destruição desregulada dos eco-sistemas, estamos a favorecer um futuro com menos água, com solos mais pobres e portanto uma escassez das matérias e dos produtos alimentares mais básicos.

Estes aspetos têm de ser tidos em conta e contra-balançados com a hipótese de lucro mais rápido através da monocultura do eucalipto já que essa visão a curto-prazo traz consequências a curto, médio e longo prazo.

A falsa mina de ouro – quanto mais Eucaliptos plantados, menor o seu valor

Durante muitas décadas o Eucalipto foi visto e divulgado como a única espécie rentável para os proprietários florestais.

Para avaliar esta percepção, convido o leitor a observar os extensos e ubíquos eucaliptais à sua volta – quantos consegue observar com uma limpeza evidente? Em quantos identifica as marcas das máquinas de recolha de madeira? Quantos observa que estão ao abandono total, com árvores de grande altura misturada com outras de pequeno porte e/ou muito mato?

Dependendo da região onde o leitor mora, provavelmente observará que a maioria ou pelo menos uma grande parte destas monoculturas estão ao abandono.

Isso deve-se ao excesso de abundância desta espécie e ao trabalho árduo e dispendioso que é necessário para manter tal monocultura nas devidas condições.

Tal como nos ensina a lei da oferta e da procura, quando a procura de uma matéria prima é maior que a sua oferta, a mesma será valorizada e poderá ser vendida mais facilmente e a melhor preço.

Inversamente, quando a matéria prima é tão abundante que a indústria não lhe consegue dar vazão, o preço da mesma cai e as hipóteses de lucro para os proprietários diminuem.

Com o excesso atual do eucaliptal em Portugal, é difícil acreditar que a expansão da monocultura de eucalipto seja realmente interessante financeiramente.

Como distinguir o verdadeiro do falso ou o tendencioso do imparcial perante tais campanhas?

Convido o leitor a refletir sempre com sentido crítico cada vez que lhe são apresentados tais conteúdos nas redes sociais ou ditados nos espaços rurais.

Para além dos esclarecimentos prestados neste artigo, termino convidando o leitor a coloca-se sempre as seguintes questões:

  • alguém beneficia financeiramente ao defender e desculpabilizar o eucalipto?
  • alguém beneficia financeiramente ao ser contra o mesmo?
  • quando foi a última vez em que ouviu falar de um grande incêndio em carvalhal? Ou em souto (castanheiro)? Ou em montado de sobreiro?
  • por outro lado, quando foi a última vez que ouviu falar num grande incêndio em eucaliptal? Ou em pinhal?

 

 

Referências

1 https://www.icnf.pt/api/file/doc/1f924a3c0e4f7372

2 Alexander Held, European Forest Fire institute em Testemunhos do Desastre – National Geographic Portugal

 
 

 
 
 
 

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