Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2026-10-07

Observações de Odonata no Parque Natural da Serra da Estrela

Observações de Odonata no Parque Natural da Serra da Estrela

 

Palavras chave

distribuição geográfica  Odonata  Parque Natural da Serra da Estrela  
 

Resumo

Apresenta-se uma síntese das observações de Odonata realizadas, desde 2009, no território do Parque Natural da Serra da Estrela, incluindo o registo de novas espécies para esta área protegida, bem como a identificação dos respetivos autores.

Desde a publicação, em 2009, do artigo “The Dragonflies of Serra da Estrela Natural Park, Portugal” (Ferreira et al.), o contributo de diversos naturalistas permitiu ampliar de forma significativa o conhecimento sobre a fauna de Odonata no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), reforçando a relevância desta área montanhosa em termos de biodiversidade a nível nacional. Atualmente, o parque destaca-se como um dos territórios mais ricos do país em diversidade de Odonata, contabilizando 44 espécies (19 zigópteros e 25 anisópteros), o que corresponde a cerca de 69% das espécies registadas em Portugal Continental (64 no total: 23 zigópteros e 41 anisópteros).

Apresentam-se, de seguida, as espécies entretanto acrescentadas ao inventário do parque, bem como os respetivos autores, desde a publicação do trabalho de Ferreira et al. (2009). Esse estudo constitui uma referência fundamental, reunindo a informação disponível até então e incluindo os resultados de prospeções realizadas pelos autores no PNSE. Assim, serve de base para a presente síntese sobre as observações de libélulas e libelinhas na área.

O artigo evidencia, por um lado, que a diversidade de habitats naturais do parque favorece uma elevada riqueza biológica, e, por outro, que, em 2009, o PNSE já era a área protegida com maior diversidade de Odonata em Portugal Continental, com 34 espécies registadas (face às 24 anteriormente referidas na literatura). Destaca-se ainda a identificação de 11 novas espécies para o parque nesse trabalho.

Adicionalmente, observações realizadas por Hugo Figueiredo em 2006 (dados não publicados; comunicação pessoal, s.d.) revelaram a presença de duas espécies que não tinham sido detetadas nas prospeções conduzidas por Ferreira et al. em 2005, possivelmente devido à época em que foram efetuadas as amostragens:

  • Sympecma fusca (Vander Linden, 1820);
  • Sympetrum striolatum (Charpentier, 1840).

No âmbito do projeto “Biodiversidade, endemismos e espécies protegidas associadas às lagoas e cursos de água da Serra da Estrela: valorização de um século de aproveitamento hidroelétrico” (Serrano et al., 2014), financiado pelo Fundo EDP para a Biodiversidade 2011, foi igualmente revelada a presença, no PNSE, das seguintes espécies:

  • Anax ephippiger (Burmeister, 1839);
  • Macromia splendens (Rambur, 1842).

Por sua vez, Tânia Araújo divulgou, no seu sítio eletrónico, um conjunto de observações realizadas no parque e na sua área envolvente entre 2015 e 2017, acrescentando duas novas espécies ao inventário do PNSE:

  • Coenagrion scitulum (Rambur, 1842);
  • Gomphus pulchellus Selys,

A autora refere ainda a ocorrência de táxones submediterrâneos e afro-tropicais (Boudot et al., 2017) em locais próximos do PNSE, reforçando a importância biogeográfica desta área protegida.

 

Taxa submediterrâneos (SM) e afro-tropicais (AT) nas imediações do PNSE:

  • Erythromma viridulum (SM);
  • Trithemis annulata (AT);
  • Diplacodes lefebvrii (AT).

No âmbito do presente trabalho, durante três campanhas de prospeção realizadas em 2016 (de 19 de junho a 3 de julho), 2017 (de 30 de maio a 2 de julho) e 2018 (de 2 de maio a 13 de junho, e entre 14 e 20 de setembro), foi possível confirmar a presença de cinco novas espécies no território do PNSE:

  • Coenagrion puella (Linnaeus, 1758);
  • Gomphus graslinii (Rambur, 1842);
  • Gomphus simillimus Selys, 1850;
  • Orthetrum cancellatum (Linnaeus, 1758);
  • Trithemis annulata (Palisot de Beauvois, 1807).

Coenagrion puella foi observado pela primeira vez nas proximidades de uma grande lagoa artificial privada destinada à pesca recreativa, no flanco ocidental da Serra da Estrela (Seia). A sua presença no PNSE foi ainda confirmada nas prospeções de 2018 (Seia e Salgueirais).

Gomphus graslinii e Gomphus simillimus foram identificados ao longo de cursos de água correntes e bem oxigenadas, em vales relativamente encaixados, cujas margens eram ladeadas por árvores (nomeadamente Alnus sp. e Salix sp.), no flanco ocidental da serra da Estrela. Partilhavam o habitat, em simpatria, com Oxygastra curtisii, Macromia splendens, Calopteryx xanthostoma, Calopteryx haemorrhoidalis, Platycnemis latipes e Boyeria irene.

Por sua vez, Orthetrum cancellatum (duas observações) e Trithemis annulata (várias observações entre o final de maio e meados de junho de 2018, e novamente em setembro) foram registadas em pedreiras abandonadas no sopé do flanco ocidental da serra da Estrela (Seia), a cerca de 460 metros de altitude. Estes locais correspondem a planos de água relativamente extensos, utilizados para pesca recreativa e alimentados por uma linha de água temporária, apresentando margens com vegetação diversificada, de natureza herbácea, arbustiva e arbórea.

No total, as dez novas espécies acrescentadas à lista de Odonata do PNSE reforçam a elevada relevância da biodiversidade desta área protegida, sublinhando também a responsabilidade associada à sua conservação. Destaca-se, neste contexto, a presença de espécies abrangidas pela Convenção de Berna (1979) e pela Diretiva Habitats da União Europeia (2003), como Gomphus graslinii e Macromia splendens, bem como Coenagrion mercuriale e Oxygastra curtisii, já anteriormente referidas por Ferreira et al. (2009).

Por fim, Ferreira et al. (2006, 2009) destacaram a ocorrência exclusiva, em Portugal, de duas espécies no território do Parque Natural da Serra da Estrela: Aeshna juncea e Sympetrum flaveolum. Contudo, importa referir o registo efetuado pelo autor deste trabalho de Aeshna juncea no Parque Nacional da Peneda-Gerês, a 7 de agosto de 2011, na Lagoa do Marinho, onde foram observados pelo menos dois indivíduos adultos (incluindo uma fêmea em postura) bem como uma exúvia da mesma espécie. Assinala-se ainda a confirmação mais recente da presença de Sympetrum flaveolum no Parque Natural de Montesinho, o que alarga a distribuição conhecida desta espécie em território nacional (Boieiro et al., 2023).

Apresenta-se, nas duas tabelas abaixo, uma síntese das observações realizadas no território do Parque Natural da Serra da Estrela e das quais tivemos conhecimento.

Tabela 1: Zygoptera

Tabela 2: Anisoptera Agradecimentos:

Agradece-se aos diversos observadores que gentilmente comunicaram os dados

recolhidos durante as suas prospeções no Parque Natural da Serra da Estrela, nomeadamente Hugo Figueiredo, Tânia Araújo, bem como aos membros da equipa do projeto «Biodiversidade, endemismos e espécies protegidas associadas às lagoas e cursos de água da Serra da Estrela». Agradece-se igualmente a José Conde pelos dados facultados, assim como pelos conselhos e apoio documental prestados, que permitiram o contacto e a troca de informação com alguns observadores.

Referências bibliográficas

Boieiro, Mário, Ceia, H., Caramujo, M.J., Cardoso, P., Garcia Pereira, P., Pires, D., Reis, J. & C. Rego (eds.), 2023, Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental. FCiências.ID e ICNF I.P., Lisboa, 468 p.

Boudot Jean-Pierre, Grand Daniel, Wildermuth Hansruedi, et Monnerat Christian, 2017, Les Libellules de France, Belgique, Luxembourg et Suisse, éd. Biotope, coll. Parthénope, 2e édition, 456 p.

Ferreira Sónia, Grosso-Silva, José Manuel, lohr, M., Weihrauch, F., et Jödicke, R., 2006, A critical checklist of the Odonata of Portugal, International Journal of Odonatology, 9(2): 133-150.

Ferreira Sónia, Grosso-Silva, José Manuel, et Sousa, Pedro, 2009, The Dragonflies of Serra da Estrela Natural Park, Portugal (Insecta, Odonata), Boletin Sociedad Entomológica Aragonesa, 44 : 417-424.

Maravalhas Ernestino, e Soares Albano, 2013, As Libélulas de Portugal. The Dragonflies of Portugal, booky publisher, pp. 336.

Serrano, ARM, Soares, A, Silva, A, Fonseca, A, Bívar de Sousa, A, Figueiredo, A, Rego, C, Aguiar, CAS, Monteiro, E, Figueiredo, H, Conde, J, Boieiro, M, Garcia-Pereira, P, Borges, PAV, Cardoso, P, Antunes, S, Lopes, S, Correia, T, e V Simões (2014) Biodiversidade, endemismos e espécies protegidas associadas às lagoas e cursos de água da Serra da Estrela: valorização de um século de aproveitamento hidroeléctrico – Relatório final. Fundo EDP para a Biodioversidade 2011, Lisboa.

Araujo Tânia: sítio eletrónico http://www.serradaestrelaselvagem.org

 
 

 
 
 
 

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