2026-10-07

Palavras chave
ametade covao estrela zezereO monumento natural que é o Covão d’Ametade, pelo estado deplorável em que se encontra, tem motivado as mais diversas reacções nas redes sociais. Muitas, num tom acusatório e até reivindicativo, não deixando de fora nenhuma das entidades com responsabilidades na Serra da Estrela, tenham estas algum tipo de responsabilidades no estado em que aquele espaço se encontra.
Façamos um enquadramento histórico para que melhor se entenda a situação.
O Covão d’Ametade foi durante uns longos anos um campo experimental de pastagens, sobre a alçada da Estação de Biologia Florestal, sedeada em Manteigas. Toda a paisagem que hoje, ainda, pode ser admirada no Covão d’Ametade é o resultado do trabalho que este serviço teve necessidade de fazer para ali instalar o campo de ensaios. Desde logo o sistema de drenagem, os açudes e a plantação das árvores que definiam as diversas áreas de investigação e, ao mesmo tempo, fazer a correcção e protecção das margens do rio e das linhas de escoamento.
Quando deixou de ter interesse para o estudo das gramíneas e o espaço começou a ser procurado pelas pessoas para veraneio, que durante anos esteve sem qualquer vigilância e cada um fazia o que lhe apetecia, havendo até quem já tivesse lugar garantido para a sua roulote, o espaço ameaçava entrar num estado de degradação, sem regras que corrigissem esta realidade. As viaturas entravam até era possível, fazendo com que a margem direita chegasse a estar repleta de carros, e caravanas. Era um regabofe!
Para tentar corrigir a realidade que se vivia no Covão d’Ametade, o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) começou por colocar alguns jovens no período do verão e criar algumas regras básicas. Inclusive a de cobrar pela entrada das viaturas, num acto evidente de que os dirigentes do Parque não tinham ainda uma noção da importância do espaço, quer ao nível da conservação quer do turismo. A construção das infraestruturas que ainda hoje lá se encontram é a evidência dessa incongruência.
Ou seja, o PNSE procurou dar mais sentido às necessidades e pressão das pessoas que às medidas de conservação que o espaço justifica, em perfeita consonância com o desenvolvimento de políticas turísticas sustentáveis.
Foi assim que apareceu a figura do “Apoio ao Campismo”, uma criatividade omissa na legislação.
Foi à revelia de qualquer orientação superior que os carros e caravanas deixaram de entrar no Covão d’Ametade e o espaço em exclusividade para os visitantes, merendeiros e a permissão de se poder acampar, embora em número reduzido de tendas. Não foi nada complicado explicar aos proprietários das viaturas que a importância do local não comportava o seu uso pelos carros. Foi mais difícil que a medida tivesse sido compreendida pelo “poder” que as muitas acções que foram com cada um dos proprietários dos veículos.
As mudanças na Direcção do PNSE, que considerou que não podia estar a praticar uma gestão com base numa ilegalidade, o campismo, bem assim como as exigências sobre a tutela estão na base da degradação do Covão d’Ametade. A retirada da Parque Natural da Serra da Estrela, da sua gestão, e a entrada do Baldio, originou uma sequência de disparates que foram sendo cometidos até se chegar ao estado que é conhecido.
Claro que não é alheio a tudo isto uma certa ligeireza na forma como se olha para a Serra, neste caso para o Covão d’Ametade e se pensa que basta colocar, um bar, uns fogareiros, e uma casas de banho e a questão fica resolvida.
O estado deplorável a que o Covão d’Ametade chegou faz com que surjam propostas que não teriam sentido se essa realidade não existisse. A criação de um pagamento para se ter acesso ao espaço foi uma das anunciadas. Procurar soluções para a promoção, e para os problemas da conservação dos espaços naturais através do seu mercantilismo, pode não ser uma boa solução.
Para a nossa Associação, que durante quase 40 anos realizou actividades no Covão d’Ametade, acompanhou todas estas alternâncias na gestão e intervenção, tinha a perfeita convicção das consequências para aquele que foi chamado de “Monumento natural”.

Fechar os olhos para o estado de degradação a que o Covão d’Ametade chegou é de um total desprezo por todos os naturais de Manteigas, por aqueles que o admiram e, acima de tudo pela magnância do lugar.
A ASE sempre se mostrou disponível para colaborar na procura de uma boa solução para o Covão d’Ametade!
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