2026-10-07

Palavras chave
pnse revitalizaçãoSe o fogo de 2022 andou por onde quis e como quis, como bem demonstrou a reportagem da RTP, pela jornalista Rosa Veloso, o mesmo se poderá dizer que os madeireiros fizeram o que quiseram com a retirada da madeira ardida. Justiça seja feita para aqueles, muito poucos, que não ousaram cometer as mesmas práticas, deixando as encostas por onde o fogo passou num estado deplorável.
A criação de rilheiras paralelas à vertente, como meio mais rápido e de menores custos para os madeireiros, veio causar a aceleração drástica do processo erosivo hídrico, levando à perda de solo fértil e, ao mesmo tempo, aumentar o risco da instabilidade estrutural com possibilidade de originar deslizamento de terras.
Qualquer técnico florestal sabe ou deveria saber que qualquer evidência que encaminhe as águas pelas linhas de maior declíve, prendiculares às curvas de nível, reduz ou mesmo anula o efeito de barreira fazendo com que a água da chuva deslize velosamente, transportando tudo o que a sua capacidade energética é capaz. As consequências podem provocar ou acelerar danos, no meio físico e no ambiente das encostas através do encaminhamento e aumento da velocidade do escoamento da água, em vez de se espalhar pela encosta. Sem obstáculos, a água da chuva ganha velocidade e energia cinética, multiplicado a capacidade de transporte das particulas de terra, provocando a aceleração da erosão, deixando as vertentes já de si carenciadas de solo arável num estado ainda mais periclitante.
Num tempo em que a falta de água é notória a olho nu, a dificuldade de reabastecimento dos lençóis freáticos, causada pela velocidade da água e pela ausência de obstáculos que ajude à infiltração, faz com que o desejável processo de escoamento seja mais lento.
Com o tempo, as rilheiras vão afundando cada vez mais impossibilitando que haja a regeneração das plantas, alterando a morfologia das vertentes e da paisagem mais aceleradamente conforme se pode verificar pela imagem, tirada este mês, decorridos que são já 4 anos depois do incêndio.
Inevitalmente, tudo o que se passa a montante vai ter reflexos a juzante como temos vindo a assistir com as cheias e o alagamento das margens dos rios de forma abrupta e violenta.
Mas não se pense que o problema das rilheiras se resume à erosão hídrica, perda do solo e de nutriente, bem assim como impacto na paisagem? Ao nível dos fogos têm uma função cujo desfecho podem causar problemas a quem os combate e algumas surpresas que podem baralhar as tácticas para quem os comanda.
As rilheiras, pelo alinhamento que têm, prependiculares às curvas de nível, transformam-se em autênticos tubos de vento que transportam consigo oxigénio, o gás sem o qual não existiria fogo. que alimenta as chamas e contribui para a dinâmica das chamas o que causa mais dores de cabeça aos que os combatem. Quanto maior for o fornecimento de oxigénio gasoso, mais rápida e intensa é esta reação. As rilheiras tornam-se assim o sistema mais propício à penetração dos ventos pelas encostas, criando dinâmicas que a violência do ar provoca e ao mesmo tempo fornece o oxigénio de que as chamas necessitam, dando origem a colunas de convecção, pelo ar superaquecido, funcionando a base da coluna como um aspirador de oxigénio. Qualquer leigo na matéria, habituado aos fogos em zonas montanhosas sabe como é a progressão das chamas em encostas íngremes. Sabendo isto, o que os responsáveis pela autorização e acompanhamento, da retirada da madeira queimada permitiram, foi o aumento do risco dos futuros incêndios se tornarem ainda mais dramáticos.
Como resolver o problema?
A única solução, que exige agora maiores recursos, nada tem a ver com aqueles que constam do Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela (PRPNSE). Aliás, nem sequer constam do programa. Só é possível minimizar esta triste realidade através da criação progressiva de barreiras físicas, em pedra seca ou com troncos de madeira, para reter a violências das águas e o transporte de inertes. Ao mesmo tempo ir fazendo o desbaste dos matos optando por preencher, com esses matos, as rilheiras em vez de “aspirarem” as encostas para alimentar as centrais térmicas, como tem vindo a ser prática.
Só assim será possível recuperar o mal que foi feito, criar condições a longo prazo para que o solo se restabeleça e a germinação das plantas se processe naturalmente. É uma trabalho que exige a inventarização das áreas de maior risco e a intervenção imediata mais adequada, de acordo com o material mais disponível em cada realidade.
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