2025-10-16

Palavras chave
florestas fogoFalam, falam, falam, e não dizem nada…
Corro o risco de também escrever e escrever…e não ficar nada útil escrito.
Mas tenho uma opinião formada, e penso poder ser útil a sua partilha.
Costuma-se dizer que a história repete-se.

Quando há algo de errado na sociedade, os problemas ocorrem com maior frequência, e sempre que as circunstâncias se alinham de forma semelhante, repetem-se os maus acontecimentos.
Ainda pode haver pequenas minorias que recusam a noção de o ‘aquecimento global’; há sempre negacionistas, tal como há quem afirme que a Terra é plana e não um esferóide no espaço, e haja quem diga que o Homem nunca chegou à Lua…
Mas os factos estão à vista de todos: os eventos de clima extremo são cada vez mais frequentes, os Invernos cada vez menos frios e os Verões cada vez mais longos. Isso deveria preocupar os governantes. Na Serra da Estrela, há cada vez menos neve e a altitudes cada vez mais elevadas, enquanto a intensidade da seca no Verão aumenta, com o secar das fontes, turfeiras, e linhas de água a ocorrer em datas cada vez mais precoces de ano para ano…
Fala-se na necessidade de fixar carbono e até se oferecem €€ pelos créditos de carbono que algumas empresas conseguem com a plantação mediatizada de árvores em terrenos recentemente queimados.
Depois,
Ardem milhares de hectares de pinhal, eucaliptal e matos todos os anos no Verão. Cerca de 46% da área ardida é floresta, com um espaçamento entre árvores por vezes absolutamente caótico e impenetrável. Se cada árvore tem, em média, 10 metros de altura, corresponde a mais de 5 toneladas de carbono por árvore. A um distanciamento estimado de forma conservadora a 3 metros corresponde a ~1000 árvores por hectare. Se arderam 252 mil hectares, 46% floresta, com ~1000 árvores com 5 toneladas de carbono cada uma, equivale a 578 milhões de toneladas de carbono libertados nos incêndios deste Verão em Portugal!!! 578 milhões de toneladas… Podem alguns dados estar um pouco ‘ao lado’, mas o valor dá-nos uma ordem de grandeza da quantidade de poluição.

Para além da poluição, há que considerar os custos económicos directos e indirectos com os incêndios, as perdas de rendimentos, de bens, de vidas humanas e de animais e plantas.
Esta intensidade de poluição carbónica é absolutamente inadmissível, numa época em que se quer fixar carbono, reduzir a pegada ecológica e evitar as agressões ambientais.
Os custos com os incêndios são uma sobrecarga para a sociedade que ultrapassam a nossa capacidade de regenerar. Os custos directos (valor monetário pago pelo Estado e pelos particulares pelos meios de combate, indemnizações pagas pelas seguradoras e perdas imediatas de meios e de bens) são enormes. Falou-se na televisão em vários valores avultados, não é aqui relevante contabilizar – ‘Bruxelas paga’… Os custos indirectos, esses sim, são valores MUITO GRANDES: perdas de rendimentos futuros das explorações silvícolas, perdas de rendimentos do turismo nas regiões ardidas, perdas de investimento futuro, no turismo, em equipamentos sociais, na construção civil…
Por último há a considerar o despovoamento das áreas ardidas e do interior do país, em geral. Cada família que perde a coragem de enfrentar mais um ciclo de incêndio, cada empresário que perde os trabalhadores, os pavilhões e as maquinarias são aldeias que perdem os habitantes, as mercearias e os cafés, são vilas que perdem as escolas primárias, os postos de combustível, os centros de saúde, as padarias, os restaurantes e os centros paroquiais. Com cada incêndio as localidades do interior afectadas pelos incêndios perdem gente e fazem perder gente às localidades vizinhas, que vão para as cidades, para o litoral ou para o estrangeiro. Mas deixam de produzir riqueza nas localidades afectadas e circundantes.
Diria que, a médio e longo prazo, os incêndios florestais, a manterem-se ao ritmo dos últimos 20 anos, vão comprometer de forma irrevogável, a capacidade económica do nosso país.
Então, que fazer?
Há quem vire as costas ao problema, há quem se vá embora a meio da crise; há quem diga palavras grandes, que aponta o dedo e até quem dê a cara e ajude. Mas não chega…
Ouvi dizer, há três anos, após o incêndio que lavrou durante duas semanas na Serra da Estrela, de 6 a 18 de Agosto de 2022, não me lembro se pela boca de um governante, se um técnico ou de um ‘comentador’ televisivo. Mas lembro-me de ter sido dito que “o incêndio pode ser uma grande oportunidade”
Até concordo… Mas normalmente essas oportunidades são desperdiçadas. Limpar o quadro e começar ‘do zero’. No caso do incêndio de 2022 todas as entidades envolvidas, todas, estão a desperdiçar a oportunidade. No caso dos incêndios deste ano, tudo me leva a crer que será uma (mais uma) oportunidade desperdiçada… Repeti a palavra ‘todas’, porque vivo em Manteigas, acompanhei o incêndio, participei no combate às chamas e acompanho várias frentes da falta de recuperação e de desaproveitamento da oportunidade. Vejo o que podia ter sido feito, o que devia ter sido feito, e vejo o que foi feito e o que não foi feito…
Se não há um plano integrado de recuperação das regiões ardidas, NUNCA se há-de recuperar nada, e as oportunidades serão SEMPRE DESPERDIÇADAS!
Antes de explicar o que deve ser feito, deixe-me explicar ao meu leitor a causa do erro que levou à situação calamitosa e caótica da ‘floresta’ em Portugal.
Há vários milhares de anos que se explora a floresta, primeiro com o fogo, desde a idade do ferro com a metalurgia, o machado e a serra permitiram o abate sistemático de árvores. Até então toda a Europa estaria coberta por floresta. A partir dessa época começou uma transformação da paisagem sem igual na história. No território onde agora existe Portugal, o norte era coberto por florestas onde predominava o carvalho de folhagem caduca (o carvalho alvarinho e o carvalho negral); nas regiões mais baixas do centro e sul predominava o sobreiro e a azinheira.
Com a revolução da metalurgia, as florestas deram lugar à paisagem denominada ‘agro-pastoril’, que significa agricultura e pastorícia – campos abertos onde se cultivava a terra com searas ou hortas ou então as terras eram mantidas limpas por animais que pastavam – principalmente vacas, ovelhas e cabras. As regiões montanhosas foram as últimas a ser cultivadas, com o aumento da população e a falta de mecanização da agricultura obrigaram a expandir a agricultura até os mais recônditos cantos do nosso território: qualquer ‘cantinho’ onde a agricultura fosse possível, a terra era cultivada, ou pastoreada por rebanhos de cabras, ovelhas, vacas e porcos.
Na nossa Serra da Estrela a agricultura chegou mesmo aos vales mais elevados da serra, onde os prados de centeio cobriam os vales até os 1500 metros de altitude. A Serra de Baixo foi toda cultivada extensivamente, todo o vale do Rio Mondego e o planalto de Videmonte. Amostras de pólen datadas com exactidão por carbono-14 evidenciam que a desflorestação definitiva dos vales mais altos da Estrela terá começado há 845 anos e terminado há 340 anos (Knaap e Leeuwen, p.522). Com a falta da floresta ocorreu um processo de perda de matéria orgânica acumulada de milénios de floresta, desestabilização da circulação freática e substituição do ecossistema natural pelo ecossistema agrícola. Reaparece o pólen de pinheiros, que foram plantados por todo o país a partir da Idade Média e com grande intensidade no século passado.
Desde que a humanidade começou a abrir as florestas e a fazer desaparecer quase por completo as árvores, a paisagem foi geralmente sempre organizada em função das nossas necessidades alimentares: os terrenos eram cultivados com cereais, com pomares ou hortas ou então eram mantidos limpos pelos rebanhos de gado.
Com a mecanização da agricultura na segunda metade do século passado e a mais recente globalização dos mercados, a Europa tem excedentes de produção agrícola. Significa isto que produzimos mais alimentos do que necessitamos e que podemos importar com facilidade e segurança muitos suplementos nutritivos de locais distantes. Significa também que deixámos de necessitar de cultivar as terras menos produtivas.
Outro factor importante nesta equação complexa relaciona-se com a demografia: os que nascem, os que morrem, as suas idades e movimentos migratórios. Graças a inovações sanitárias e médicas e alterações culturais, a Europa está, há várias décadas, com tendência populacional decrescente. É mais acentuado nos países onde não há fluxo de imigrantes que compense a perda de população, mas de um modo geral os países tendem para um desenvolvimento demográfico onde predomina a maior longevidade, a maior duração da substituição de gerações e a diminuição da natalidade e da dimensão familiar. A Europa e a Ásia estão mais adiantados, o continente africano mais atrasado, mas a tendência é unidireccional e inevitável: a população humana terá o seu valor máximo na segunda metade deste século, e começará a haver menos população. O futuro mais afastado ainda é uma incógnita, mas haverá mais recursos, mais espaço e mais energia para cada pessoa, no futuro.
Estamos num momento de viragem nos nossos hábitos culturais e alimentares. É da maior importância definir uma estratégia para a reflorestação do nosso território. Não só para as áreas ardidas, mas para o nosso pais, em geral.
Não faz sentido nenhum, a gestão das florestas estarem subordinadas a um instituto de protecção e conservação da natureza, mas sob tutela do ministério da agricultura. Deve-se definir com muita clareza as áreas onde se pretende ‘explorar a floresta’ e as áreas onde se pretende ‘conservar biodiversidade’. Podem existir as mesmas espécies de árvores em ambas as áreas, mas a gestão terá de ser diferente e por tutelas diferentes: uma do Ministério da Agricultura e a outra do Ministério do Ambiente.
É essencial a criação de um organismo que possa tutelar a gestão do espaço florestal dotado de recursos humanos e financeiros suficientes para a tarefa da próxima geração. Há que fazer viveiros de plantas, mas a uma escala que permita reflorestar centenas de milhares de hectares e de forma maciça, integrada, sistemática e rápida, com sistemas de rega automatizados e integrados com a geração de energia eólica e fotovoltaica de modo a assegurar taxas de sobrevivência das plantas mais elevadas que nas iniciativas actuais de plantação, onde a taxa de sobrevivência é quase igual a zero!
As áreas ardidas devem ser encaradas como ‘especiais’ na protecção contra a erosão e a exploração.
O pastoreio por rebanhos terá de ser vedado na fase inicial, mas posteriormente será permitido.
As espécies exóticas devem ser retiradas de forma gradual mas sistemática da paisagem florestal. Tanto o eucalipto como a acácia resistem ao corte e ao fogo, devem ser desenraizadas (‘tombadas’) e não cortadas no abate.
Deve-se direccionar as actividades de viveiros e de reflorestação para as espécies que constituem as florestas autóctones de folhosas, principalmente de carvalhos com incentivos para a substituição total dos pinhais.
As áreas ardidas juntamente com as áreas que estão sem aproveitamento silvícola ou em abandono (os ‘matos’ de silvas, giestas, urzes e estevas, p. ex.) devem ser florestadas independentemente da sua situação de propriedade com a instituição de um regime temporário de posse administrativa.
A utilização de sistemas de informação geográfica, teledetecção e a interligação de métodos de várias temáticas técnicas e científicas (desde solos, clima, corredores verdes à integração paisagística) devem orientar a construção de uma paisagem florestal integrada e mecanizável ao mesmo tempo que permitirá assegurar rendimentos para o futuro. O seu aspecto será semelhante ao montado de sobreiro do Alentejo, mas com os carvalhos de folhagem caduca, de crescimento direccionado para a vertical. Poderá ser em povoamentos mistos com sobreiros ou castanheiros e diversas árvores de rendimento (pêssego, maçã, cereja, etc.). O solo deve ser sempre limpo, por rebanhos em pastagem ou com limpeza mecanizada.
Com os mesmos métodos, mas com ênfase sobre a diversidade ecológica deve-se reflorestar urgentemente as áreas protegidas, os parques naturais, com o objectivo da obtenção de uma paisagem florestal heterogénea horizontal e vertical em equilíbrio com os microclimas locais e que sejam repositórios de espécies raras ou de ecossistemas de distribuição limitada (exemplos na Estrela: o teixo, o azereiro, a aveleira e a argençana). Deve-se tentar a introdução de herbívoros selvagens.
A nossa área florestal é tão grande que, se for bem gerida, podemos insistir na plantação de folhosas de crescimento lento, e no entanto assegurar quantidade amplamente suficiente de lenha para cobrir as necessidades da indústria da celulose e pasta de papel e exportar carvalho.
Apenas com determinação e objectivo se consegue aproveitar os últimos anos de incêndios para serem uma oportunidade de substituir o barril de pólvora dos pinhais e eucaliptais caóticos por uma paisagem de floresta de exploração de folhosas em equilíbrio com o clima do futuro, numa paisagem organizada, sustentável e de alto rendimento e muito mais resistente às chamas e à propagação do fogo, onde se substitui o sangramento sistemático do combate às chamas pelo investimento na prevenção através da exploração racional da floresta.
Bibliografia referenciada:
Knaap, W. O., van Leeuwen, J. F. (1994): Holocene Vegetation, Human Impact and Climatic Change in the Serra da Estrela, Portugal. Dissertationes Botanicæ 234, p. 497-535 in Festschrift Gerhard Lang, A.F. Lotter & B. Ammann (eds.). 1994.
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