Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 
Montanhista

2024-03-05

O Serrano

O Serrano

 

Palavras chave

ase  serrano  
 

Eu sei que ele não vai gostar disto. É Homem da serra, nasceu no granito, cresceu no granito, vive no granito, ama o granito e não gosta cá destas coisas (para não utilizar o vernáculo). Um serrano. Mas também sei que me vai perdoar e, na próxima vez que me vir, lá virá mais um forte abraço montanheiro.

Estávamos no início dos anos 80, casado há pouco tempo e a iniciar a minha carreira profissional, faltava muitas vezes “aquilo com que se compram os melões” e nem “popó” havia.  Isso não impedia que nos metêssemos no comboio e rumássemos à Serra da Estrela sempre que  aparecia no calendário um daqueles fins de semanas prolongados. Mas desta vez foi diferente. Era Verão e eu e a Paula (que já nessa altura acampava no meu coração), resolvemos levar o meu irmão, com uns 7 anitos, para umas férias no Covão da Ponte, um lugar que sempre me encantou.  Deixámos Santa Apolónia no regional da manhã, que era baratinho, e muitas horas depois apeámos na Estação de Belmonte onde apanhámos o autocarro para a vila, aproveitando para uma curta visita e para comprar mais uns mantimentos. Fez-se tarde e às tantas disseram-nos que a camioneta de carreira para Manteigas só seria no dia seguinte. Para grandes males, grandes remédios. Metemos pés ao caminho, de mochila às costas (nem o puto se safava à carga), e lá fomos caminhando pela estrada em direcção a Manteigas, não fosse aparecer alguma boleia. Não apareceu, e também não fomos longe, porque ao passar a ponte sobre o Zêzere não resistimos às águas frescas do rio e acampámos ali mesmo (outros tempos) uma vez que a carreia haveria de passar por lá na manhã seguinte. E passou. Chegados a Manteigas tínhamos um caso muito mais difícil para resolver: como ir até ao Covão da Ponte. De táxi, nem pensar, que o preço era proibitivo e a estrada nem sequer era alcatroada a partir da curva da N232 que segue para as Penhas Douradas. Vagueámos pela baixa de Manteigas e fomos perguntando, aqui e ali, por alternativas para ir até ao Covão da Ponte. Nada. Até que alguém, julgo que no Serradalto, nos disse: – “Eh pá, porque é que vocês não perguntam ao Zé Maria como é que hão-de fazer? Ele trabalha ali nas bombas de gasolina”.  Não fazíamos ideia de quem era o Zé Maria, mas também não tínhamos nada a perder. 

Enchi-me de lata e lá me apresentei ao tal Zé Maria, qual Egas Moniz com a família de corda ao pescoço perante o Rei de Leão, e expus a “complicada” situação. O homem, que não nos conhecia de lado nenhum, olhou de soslaio para a triste figura daqueles três gatos pingados, a cena deve-o ter compadecido e (parece que o estou a ver), sem esboçar um sorriso, dispara: – “Eu saio às 5 da tarde. Apareçam aqui que eu levo-os lá”.  Assim, sem mais nada, sem nada pedir em troca, sem torcer o nariz, sem hesitar. Ainda hoje me comovo quando me lembro desta estória. Porque ela diz rigorosamente tudo sobre a enorme dimensão humana, sobre o espírito altruísta, desprendido, sobre o amor pela montanha e pelos que amam a montanha, do meu Amigo Zé Maria. Esta pequena estória “é“ o Zé Maria em pessoa.

Presidente da Direcção da ASE.

À hora marcada, entra em cena um Land Rover (dos antigos 88) que o Zé conduziu serra acima até ao nosso destino. Feitas as despedidas, toca a montar a tenda e todo o estaminé. Apesar de ser Verão, estávamos sozinhos no Covão da Ponte e só viríamos a ter “vizinhos” no fim de semana seguinte. Foram uns dias maravilhosos, junto ao jovem Mondego, cheios de estórias para recordar e que merecem ser contadas. Aqui ficam algumas, embora a memória já me possa atraiçoar em relação a alguns pormenores.

Zé Maria e outros companheiros, instalação de uma ponte sobre a Ribeira da Candeeira.

O nosso quotidiano resumia-se a umas banhocas no rio, sopas e descanso. Ainda ensaiámos uma caminhada até à Capela de Nossa Senhora de Assedasse (protectora dos pastores e do gado), mas as pernitas do meu pequeno irmão vergaram e, ainda não tinham sequer decorrido um par de quilómetros, amochou que nem burro que se recusa a levar a carroça, e nem mais um passo. Já para o banho estava sempre mais do que pronto e nunca se cansava. Certo dia, à tardinha, já todo arranjadinho, vestidinho de lavado e pronto para a janta, caiu todo junto ao rio, obrigando a coitada da Paula a largar o tacho e vesti-lo de novo. As ementas tinham por base o arroz e o esparguete, cozinhados no pequeno “Campingáz”, conservas, uma ou outra sobra de rações de combate (na altura eu  era militar) e, em dias de festa, uma daquelas horríveis feijoadas à transmontana ou outra qualquer refeição pronta que se compravam em latas “Sugal”. A tenda cónica era pequenina, mas cabíamos os três. Havia (ainda lá está) um pequeno bloco sanitário um pouco distante do local onde tínhamos a tenda. À noite, se a bexiga apertava, afastávamo-nos uns bons metros e… era mesmo ali. “Oh Paula, quero fazer xixi!” Lá abriu o fecho da tenda e do duplo tecto e, passados uns segundos, ouvimos um barulho estranho e deitámos as cabeças de fora. Era o meu irmãozito, a fazer o reclamado xixi… para cima da tenda de um vizinho! 

Covão da Ponte no Outono.

Apesar dos poucos clientes, o pequeno bar junto à estrada no cimo do covão estava aberto e ali passámos alguns serões na cavaqueira com quem aparecia. Foi lá que conheci o Zé Grande (julgo que não me engano no nome), um madeireiro de Manteigas que trabalhava na zona e tinha ali perto um terreno e uma corte reabilitada por ele, onde às vezes pernoitava. Fazia jus ao “apelido”, era um tipo grande, bem disposto e falador que nos contou muitas histórias sobre o vale, antigamente latejante de vida, sobre os pastores, o queijo da serra e de como ali viviam várias famílias com crianças, enfim, muito aprendemos com ele sobre um passado não muito longínquo daquele lugar. Às vezes ia a Manteigas e trazia-nos pão ou outras coisas e uma delas fui com ele. Havia uns dias que umas trutas se pavoneavam para mim no rio e o corpo andava já carente de alguma proteína animal. Comprei uma linha e uns anzois e o lojista deu-me a dica: – “Você apanha um gafanhoto, prende-o no anzol pelo anel junto à cabeça, com cuidado para não o matar, e deixa o bicho andar à superfície da água. Vai ver que resulta”. No regresso, eu que nunca fui pescador, à falta de cana de pesca utilizei mesmo um pau e segui as instruções de quem sabia.  Não tardou muito. Logo à primeira tentativa, apanhei… e fui apanhado. Olhava, alternadamente, para a desgraçada da truta a debater-se no fim da linha e para um tipo atrás de mim, surgido do nada,  que me perguntava pela licença de pesca. Perante a minha reveladora mudez, o homem diz-me assim: – “Ponha lá a truta na água.” – Obedeci – “Então não sabe que  tem de ter uma licença para pescar?”. Fiz-me de parvo e respondi-lhe que não. Mas, olhando para o amadorismo do meu “equipamento”, o guarda-rios lá me deixou ir em paz, não sem me avisar para não tornar a fazer aquilo. Ainda hoje estou para saber de onde apareceu o fulano que, provavelmente, teria visto os meus movimentos suspeitos junto ao rio e foi-se aproximando sorrateiramente até me emboscar, logo a mim, que na altura era detentor das mais sofisticadas técnicas militares de progressão no terreno. Lá se foi o jantar… e a proteína! 

Do outro lado do Mondego, junto à estrada que segue para Folgosinho, na altura não mais do que um caminho, existe uma habitação referenciada na carta militar como Casal da Vargem de Vide, onde morava um casal de idosos (ou talvez apenas parecessem idosos aos nossos olhos jovens). Uma vez fomos visitá-los, franquearam-nos as portas da casa, convidaram-nos a entrar e sentámo-nos ao redor de uma modesta mesa de madeira numa divisão que cumpria as funções de sala e cozinha, com uma lareira que se devia ter extinguido no fim da Primavera, um “open space” como é fino dizer hoje a imitar os “américas”. Ali estivemos,  com o simpático casal, em longa conversa acompanhada por um pão de centeio e um delicioso queijo da serra, saído das mãos dele e dela, em mais uma lição sobre o vale e a vida das suas gentes. Quando nos despedimos convidaram-nos para ver fazer o queijo da serra: – “ Têm é que vir pelas 6 da manhã, senão já não vêem desde o principio”.  Aceitámos de imediato o convite e na madrugada seguinte lá estávamos, ainda um bocado estremunhados, mas prontos para mais uma “aula”. O soro da coalhada escorria, vagarosamente, pela bica da francela de madeira, enquanto as mãos da senhora (infelizmente não me lembro o nome dela) apertavam com mestria a massa contra as paredes dos cinchos metálicos e ia dando forma aos queijos. Faltava apenas envolver o queijo com um pano e prensá-lo, mas explicou-nos depois as fases subsequentes de secagem como viragem diária, troca de panos e tudo o mais até a cura estar completa. Ao cabo de duas horas, já para lá das 8 da manhã, insistiram que ficássemos e tomássemos qualquer coisa com eles. Café, leite, pão com manteiga caseira? Nada disso! O que nos foi servido foi uma bela feijoada que saltou de um tacho fumegante para os nossos pratos. Bom, como o leitor imagina, isto para um trio de alfacinhas, tipo copinho de leite,  teve tanto de surpreendente como de chocante. Mas não nos deixámos intimidar, não nos fizemos de rogados e metemos mãos à obra e boca à prova, cumprindo o ditado “em Roma sê romano”.  Contudo, no fim, não resistimos a contar, como se também pudéssemos ensinar alguma coisa, que na cidade o nosso pequeno-almoço consistia do tal café, com ou sem leite, e pão com manteiga. “Ah, nós aqui também é assim!” – responderam eles. Os nossos olhos caíram nos pratos, ainda pintados com os restos da feijoada, e levantaram-se de seguida em direcção aos deles. Se estávamos confusos, ainda mais ficámos, sem saber o que nos estava a falhar. Os nossos anfitriões perceberam o embaraço e esclareceram rápidamente: – “Mas isso foi quando nos levantámos, pelas 5 da manhã. Isto agora é o almoço!”.  Compreendemos então o quão diferente era o “mundo” em que vivíamos naquela época (apesar da distância que hoje se faz em menos de 3 horas pela A23) e quão comovente era termos o privilégio de estarmos ali a receber, muito mais do que uma lição de como se faz o queijo da serra, uma verdadeira lição de história e uma extraordinária lição vida. Bem haja o casal, onde quer que esteja. 

6. Capela de Nossa Senhora do Carmo de Manteigas.

Capela de Nossa Senhora do Carmo de Manteigas.

Se a memória não me falha, corria o mês de Julho e eis que tivemos mais uma surpresa, completamente inesperada, que haveria de abençoar a nossa estadia no Covão da Ponte. 

– “Sabem que no próximo fim de semana temos aqui a romaria de Nossa Senhora do Carmo de Manteigas” informou o Zé Grande quando nos encontrou no bar. Ficámos curiosos.

– “Vem muita gente, há festa rija e bons petiscos. Estão convidados para almoçar connosco”. 

A capelinha de Nossa Senhora do Carmo era curta para albergar a enchente de crentes que ali arribaram em peregrinação e a maior parte assistia à missa do lado de fora da pequena ermida. Na estrada, entre a capela e o covão, uma fila continua de carros preenchia as bermas e, junto ao Mondego, uma enchente de piqueniqueiros ia tirando o farnel dos cestos e colocando os comes e bebes nas toalhas estendidas sobre o prado. Havia rádios sintonizados em estações diferentes e sons que se cruzavam no ar, desde o folclore mais tradicional da região até ao rock mais pesado da época. Para o rapaz do bar foi dia grande, não tinha mãos a medir para as bebidas pedidas ao balcão e escorridas por gargantas secas pelo Sol e pelo pó,  no interior, na varanda e na escadaria daquele espaço. No dia anterior, a velha escola à entrada do covão, tinha aberto as portas e a azáfama era grande. De umas carrinhas saíram mesas, cadeiras, fogões, bilhas de gás, tachos gigantes, garrafões de tinto e toda uma parafernália de facalhões e outros utensílios de cozinha. À roda de uns alguidares, um grupo de mulheres, também elas serranas, braços fortes, caras rosadas, sorrisos no rosto, desfaziam em pedaços as cabras que os homens iam desmanchando. De todo aquele ritual, haveria de sair a mais inesquecível chanfana da minha vida.No dia da romaria, juntámo-nos à família do Zé Grande, mulher e filhas ainda crianças, deliciámo-nos com aquela iguaria beirã acompanhada com um tinto do produtor, tendo como cenário de fundo a fantástica paisagem do vale que se estende até à Cruz das Jugadas, salpicado aqui e ali com as tradicionais cortes. Foi o Zé Grande que nos levou de volta a Manteigas no dia que nos despedimos do Covão da Ponte. Nunca mais o tornei a ver. Gostava de o visitar um dia.

Antiga Escola do Covão da Ponte (cortesia Aquapolis).

Infelizmente, na altura não tinha máquina fotográfica para registar estas passagens tão especiais da minha vida (todas as fotos juntas são recentes). Mas ficaram bem gravadas, mais do que nas memórias, nas nossas almas. Apesar da minha juventude tive a sensação, que o tempo se encarregaria de confirmar, de que estávamos a viver momentos únicos e irrepetíveis. Quanto ao meu Amigo Zé Maria, o mais serrano dos serranos que eu conheço, a amizade ficou para a vida. Em breve voltaria a encontrá-lo na Serra da Estrela e no Covão da Ponte, para a 7ª Marcha Nacional de Montanha, à qual dedicarei outro texto. Mais tarde, o meu percurso profissional levou-me pelo mundo afastou-me dos picos, encostas, vales e covões da Serra, mas voltava sempre que podia.  Mais recentemente, com o grupo dos Históricos da Montanha, e a liberdade que a reforma me permite, aumentei a frequência das minhas viagens à Serra e dos contactos com o Zé Maria. A importância dos amigos é directamente  proporcional à nossa idade. Aqueles de quem, para além da amizade, recebemos inspiração, são ainda mais importantes. Temos todos, para com ele, uma imensa dívida de gratidão, por uma vida dedicada à nossa Serra da Estrela.

OBRIGADO, ZÉ MARIA!

Zé Maria e o agente da GNR xyz, numa das mais recentes acções de plantação da ASE, Covão do Teixo.

 
 
 

 

Comente o artigo

0 Comentários


Contactos | Ficha técnica

© 2024 Revista Zimbro

made with by alforreca

Siga-nos