2026-02-11

Palavras chave
estradasA época da pressão sobre os limpadores da neve chegou!
Bastou a queda de uns flocos de neve para que os equívocos sobre o encerramento da estrada da “Torre” enchesse os noticiários e os comentários nas redes sociais se dilatassem no espaço e no modo.
Há algo, no entanto, que nos parece estar a querer mudar. Começa a ler-se, quer por parte de algumas entidades quer por parte de alguns cidadãos que convivem bem com a Serra da Estrela e com conhecimento, também, do que se passa noutras montanhas da Europa, alguns textos pedagógicos que merecem o nosso reconhecimento.
Pela parte que nos toca não iremos dedicar especial atenção a esse assunto uma vez que há preocupações que nos merecem maior cuidado e para onde queremos canalizar as nossas energias e, se possível, almejar a aproximação das pessoas às nossas ideias e propostas, para que se dê o desenvolvimento de um turismo na Serra da Estrela, diferente. Mais interessante, mais sustentável, mais qualidade e com menos recursos humanos e financeiros, mais segurança, mais sustentável e com contrapartidas para a região e os cidadãos bem mais promissores que o modelo que radica dos anos 60 do século passado. E já vamos tarde!
A estrada que tanto dá que falar e onde tanto dinheiro continua a ser despejado não teve por base qualquer plano que tivesse como finalidade a ligação entre localidades. Começou pela necessidade de instalar uma Estação de Radar da Força Aérea na Torre, iniciada em 1957 (para o qual houve necessidade de abrir uma estrada em terra batida, a partir de Seia), que em 1971 deixou de funcionar. Anos mais tarde, a pressão por parte da classe industrial da Covilhã que já não encontrava satisfação na pista de esqui dos Piornos, por falta de neve, inicia-se a construção da ligação à Torre pelo lado da Nave de Santo António.
A pérola que aqui reproduzimos, de 23 de janeiro de 1970, do Dr. Francisco Pinto Balsemão, que recentemente nos deixou, na Assembleia Nacional, onde era Deputado pela chamada Ala Liberal, é exemplificativo de como se projectavam as ideias para a “nossa” Serra, e que deveriam ser um momento de reflexão para os actuais mandantes por não se ter aprendido nada e destruido muito do património que deveríamos gerir com especial cuidado: “A proposta de lei do Governo assenta o desenvolvimento turístico da serra da Estrela na construção de um teleférico entre os Piornos e a Torre. No preâmbulo da proposta sustenta-se, nomeadamente, que esse teleférico se impõe “como imperativo nacional e condição imprescindível do desenvolvimento da região turística da serra da Estrela”. E, pela conjugação do que se declara no mesmo preâmbulo com o que se propõe no articulado, fácil é verificar que 30 por cento do capital sugerido para a empresa de economia mista a quem “será outorgada a concessão exclusiva para a exploração do turismo e dos desportos de neve na serra da Estrela” se encontrarão, no próprio momento da constituição da sociedade, afectos e despendidos com o teleférico Piornos-Torre.
A prioridade atribuída a este transportador aéreo e a sua indiscutível importância no investimento total a realizar obrigam-nos a reflectir acerca da sua necessidade e das suas vantagens.
Em todas as estações de neve que conheço – e que tenho frequentado como esquiador -, na Áustria, na Suíça e em França, os teleféricos sobem normalmente cheios e descem vazios ou quase. E isto porque a existência de pistas junto das estações de paragem permite aos esquiadores realizarem as suas descidas directamente até à estação-vale, donde voltam a utilizar o teleférico para subir. No caso presente, será impossível aos esquiadores que subam no teleférico dos Piornos para a Torre descerem em esqui da Torre para os Piornos, visto que “encalharão” sempre na Nave de Santo António. Isto quer dizer que os esquiadores só utilizarão o teleférico duas vezes por dia: uma, para subir para a Torre, onde praticarão o seu desporto com o auxílio dos meios de subida mecânica que aí forem instalados; outra, para descer para os Piornos, já que não podem descer em esqui. Esta situação põe em dúvida não apenas a rentabilidade do teleférico, mas a sua própria razão de existir.
Além disso – e ainda mais importante -, os teleféricos normalmente começam onde a estrada acaba. Por outras palavras: só se constroem teleféricos em percursos onde é impossível ou demasiado oneroso construir estradas.
No caso presente, existe uma magnífica estrada (a estrada nacional n.º 339), que, partindo das Penhas da Saúde, liga precisamente os Piornos à Torre, num percurso de cerca de 15 km, e desce depois para Seia. Esta estrada custou 33 250 contos, o que, para um traçado total de 37 km, corresponde a cerca de 900 contos por quilómetro.
A primeira observação a fazer é a seguinte, a entrada em funcionamento do teleférico significará a existência de uma duplicação de vias. Para além de todas as interpretações possíveis em matéria de despesas desnecessárias que desta observação se poderiam retirar, afigura-se, portanto, excessiva a afirmação, contida no preâmbulo da proposta de lei do Governo, de que o acesso ao maciço central da serra da Estrela “não pode ser feito por outro (meio) que não seja um transportador aéreo”.
Poderia aqui levantar-se a dúvida, referida, aliás, no douto parecer da Câmara Corporativa, sobre a possibilidade de manter aberta à circulação automóvel durante todo O ano, em virtude dos nevões, a estrada nacional n.º 339. Essa dúvida não tem razão de ser, pois, em resposta à pergunta que, nos termas constitucionais e regimentais, lhe dirigi, o Ministério das Obras Públicas, através da Junta Autónoma de Estradas, informou de que “está neste momento em estudo uma solução completa do problema, que possa já ser posta em prática no próximo Inverno”. A ordem de grandeza dos encargos correspondentes está estimada em 10 000 contos para o primeiro investimento e 1500 contos anuais para funcionamento e manutenção.
Temos, assim, que apenas para assegurar o acesso ao planalto da Torre se gastaram já 33 250 cantos cem uma estrada e 8000 contos com um teleférico inacabado e se pensa gastar mais 6500 cambos para concluir o teleférico e 10 000 contos para manter a estrada aberta. A despesa total, só para sei poder chegar à Torre, será, portanto, de 57 750 contos, aos quais haverá que acrescer os 1500 contos anuais de funcionamento e manutenção dos limpa-neves da Junta Autónoma de Estradas e os custos de funcionamento e manutenção do teleférico, estimados em algumas centenas de contos anuais e seguramente não cobertos pela exploração.” (1)
A estrada que rasga o Planalto Superior da Serra da Estrela, foi o maior erro alguma vez feito na Serra da Estrela e a equação para o corrigir uma necessidade para alcançar propósitos de significativa importância para o futuro da Serra da Estrela e dos seus residentes. Seria uma benção, o surgir de uma luz que pudesse iluminar as cabeças dos responsáveis pela gestão do espaço serrano, para que olhassem para este mingua de espaço, que se quer natural, com as políticas mais assertivas que pusessem a conservação em primeiro plano para que a qualidade da oferta turística possa ser de excelência. Só assim é possível termos as portas abertas para uma fronteira por onde entram aqueles que procuram o nosso país para visitar.
A Serra da Estrela e a região que a envolve, reúne das melhores condições para oferecer um turismo ao longo de todo o ano, dispensando as enchentes de ocasião que podem ser mais negativas ue positivas, paa todos os agentes envolvidos, necessitando apenas das infraestruturas necessárias para que isso se torne uma realidade de futuro assegurado.
O Tour du Mont Blanc, que agrega três países dos Alpes (França, Itália e Suíça), possui 178 kms, vários refúgios, aldeias e muitas empresas que emergem à sua volta, procurando satisfazer as necessidades aos milhares de caminhantes que o percorrem anualmente, inclusive das empresas portuguesas que oferecem serviço aos seus clientes.
É um projecto que pode envolver seis municípios, várias aldeias, o mesmo número de quilómetros que o Tour du Mont Blanc, oferecer a Serra em todo a sua plenitude possibilitando proteger o núcleo mais interessante do património natural que não estamos a conseguir fazê-lo presentemente.
Não é preciso estrada nenhuma para que isto seja viável, nem continuar a investir em projectos falhados que nos têm custado milhões. Basta apenas que nos sentemos, reflitamos e possamos decidr com serenidade e profissionalismo.
Não é necessário andar a correr, mas é preciso andar, porque a neve e as notícias, mesmo as enganosas que até têm dado jeito aos agentes económicos, ameaçam ruir.
(1) https://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/dan/01/10/01/014/1970-01-22?sft=true#p244
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