2025-11-21

Palavras chave
energia solaresCéu, Terra, Eternidade Das Paisagens
Céu, terra, eternidade das paisagens,
Indiferentes ante o rumor leve,
Que nós sempre lhes somos. Vento breve,
Heróis e deuses, trágicas passagens,
Cuja tragédia mesma nada inscreve
Na perfeição completa das imagens.
Todo o nosso tumulto é menos forte
Do que o eterno perfil de uma montanha.
Cala-se a terra ao nosso amor estranha
— Talvez um dia embale a nossa morte.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Já não bastava o grave atentado aos campos agrícolas da Beira-Baixa, ainda ousaram dar ao projecto para a instalação de uma megalómana central fotovoltaica, o nome de SOPHIA.
Esta tendência de fazer do interior do país uma reserva de “índios”, pela incapacidade de o desenvolver e promover, como merece quem nele vive, enfrentando as amarguras de ver o encerramento de serviços públicos, é mesmo de gente rija, que conhece “o pão que o diabo amaçou” e que não irá ceder a estas pretensões com facilidade. Se não fosse uma afronta ao povo do interior tal ousadia, ainda têm o desplante de ousar dar-lhe o nome “SOPHIA”, uma das maiores poetisas portuguesas que prezava a ruralidade e a paisagem nos seus poemas.
Não esqueçamos, também, a etimologia desta palavra. “Sophia” vem do grego, sophós, que significava inteligente, hábil, sábio. Conceptualizações que em tudo destoam com a intenção do que se pretende para o projecto “SOPHIA”, que tem tudo de esperteza e tão pouco de inteligência e sabedoria.
Não é concebível, a não ser pelo interesse que poderão obter quem o promove, fazer dos campos agrícolas que abrangem os concelhos do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, construir duas mega centrais, a SOPHIA e da BEIRA, um mar de painéis solares, com um total de quase dois milhões (1 791 188) de painéis. São quase 1.000 hectares de “espelhos” que vão ocupar áreas onde vão ser destruídos dezenas de milhares de sobreiros e azinheiras.
A tudo isto, juntemos a rede de linhas de alta tensão de 200 e 400KV ao longo de dezenas de quilómetros para transportar a energia onde mais se consome, quando o que seria plausível que fosse onde se consome que ela pudesse ser produzida. Só que, aí, vivem milhares de cidadãos e as consequências seriam muito mais notáveis. Os cidadãos do interior, esses, que serão afectados por tal atrocidade, ainda assim não deixaram de lutar e fazer valer as suas razões.
O impacto sobre a fauna silvestre do abate de sobreiros e azinheiras é irreparável. Na verdade, é, aliás, proibido pela legislação, a não ser que se encontrem razões de interesse público que justifiquem tal decisão. Normalmente, encontram. Curiosamente, pretende-se construir a central SOPHIA em áreas que estão inseridas nas áreas da Rede Natura 2000, REN e RAN, que estariam, à partida, protegidas pelo Estatuto da UNESCO.
Se Portugal já é um desordenamento sem solução à vista, propostas como as que surgiram recentemente para as construções na Beira-Baixa constituem mais uma enorme ferida, a somar às muitas que vamos vendo por todo o país.
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