Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2025-11-21

Chuva, não te deixes mal-tratar

Chuva, não te deixes mal-tratar

 

Palavras chave

chuva  
 

Com o despoletar de novas tecnologias de investigação e informação, os cidadãos beneficiam de avisos meteorológicos cada vez mais complexos que lhes permite atempadamente prevenir-se na véspera para os cuidados a ter para as horas ou dias seguintes.

Do mesmo modo, nem sempre estes avisos se revelam eficazes no seu propósito, na medida em que influenciam os cidadãos acerca dos lados “bom” e o “mau” das condições atmosféricas. Na verdade, a notícia que informa as pessoas sobre o “dia mau” que se avizinha (“Prepare-se, que amanhã vai estar mau tempo”) poderá significar o seu contrário.

Do ponto de vista turístico, conhecem-se as dificuldades por que passam as unidades hoteleiras e, principalmente, de alojamentos, quando vêem canceladas as suas reservas por influência da informação que chega até aos seus clientes, alertando-os para os avisos meteorológicos de “mau tempo”. Os fenómenos meteorológicos que se geram nos diferentes territórios, a par com a sua imprevisibilidade, originam frequentemente cenários de rara beleza que os potenciais clientes, em função das notícias do tempo, ficaram privados de admirar. São oportunidades de uma experiência única de montanha que fica cancelada por motivos de avisos que afastam as pessoas da realidade.

Um dia de chuva pode ser mau e um dia de Sol pode ser bom, assim como o contrário. Dias de Sol podem ser maus e dias de chuva podem ser bons. Isto é, existe um cuidado específico para os dias de Sol, mas peca-se quanto a esse cuidado no que diz respeito aos dias de chuva. De acordo com os fundamentos da Física e da Biologia, partir do princípio que a chuva está associada ao “mau tempo” e o Sol ao “tempo bom”, não só é errado como contraria o desenvolvimento da natureza.

A chuva, tal como o Sol e os restantes elementos da Natureza, são fundamentais para o desenvolvimento de todos os seres vivos, animais ou plantas. A precipitação, por sua vez, em forma de água ou neve, constitui um meio essencial para a recarga dos lençóis freáticos, o que possibilita que os rios e as nascentes tenham água durante todo o ano, sobretudo, na época do estio. Há, inevitavelmente, situações de catástrofes, como inundações ou enxurradas, em ritmos mais curtos e cuja gravidade se eleva. Porém, as consequências trágicas destes fenómenos estão mais relacionadas com a acção do ser humano, que com o natural decurso dos ciclos da vida.

A chuva não constitui uma ameaça nos diferentes campos da vida humana, embora assim seja assumida. Exemplificando, ao nível da saúde nos países com maior taxa de precipitação, não se encara a chuva como um factor prejudicial, caso contrário, grande parte da população viveria enferma. A diferença é que os cidadãos se preparam de diferentes formas, em função da realidade que conhecem. Uma ideia colorida das condições atmosféricas pode, ao invés, atormentar as pessoas que, diga-se de passagem, nunca estiveram tão bem informadas e, ao mesmo tempo, tão mal preparadas. Efectivamente, o excesso de informação a que estão sujeitas orienta-as por um caminho de perda de aptidões no que se refere à relação pessoa-natureza e, na mesma linha de pensamento, de incapacidade de adaptação às realidades naturais. De facto, com tantos alertas, como é que ainda há quem saia de casa para ir trabalhar…

Relativamente ao que se verificou nos últimos dias de Outubro, os alertas alarmavam desnecessariamente todos quantos pensassem deslocar-se. No entanto, olhando para a chuva que caía, e observando em cada gota um sabor a ouro, não se compreende os avisos que, na altura, não fizeram jus à experiência agradável da convivência com a chuva. Neste sentido, a proposta é clara: informações mais objectivas, que promovam a capacidade de adaptabilidade das pessoas às diferentes circunstâncias meteorológicas, permitindo que as mesmas testemunhem como a natureza nos brinda no tempo certo. Recordamos a fadista Mariza, na sua música “Chuva”:

“A chuva ouviu e calouMeu segredo à cidadeE eis que ela bate no vidroTrazendo a saudade.”

A precipitação, por pouca que seja, vai fazer estragos em muitas zonas da Serra, desde logo, nos vales ardidos, em que as terras serão arrastadas, acompanhadas de pedras e outros inertes, deixando as encostas nuas, pobres e com menos capacidade para suportar o crescimento de novas árvores e da biodiversidade em geral. Se a chuva é abundante e já não ocorrem enxurradas, tal significa que as encostas já não têm solo que possa ser arrastado. É, no fundo, a nudez das encostas e da sabedoria dos indivíduos a desenhar o futuro da Serra.

Mas há um outro sinal que não podemos ignorar e que os meios de comunicação não referem: o enchimento rápido dos leitos pelas águas das chuvas constituem um indicador da ausência de vegetação nas vertentes e, simultaneamente, uma advertência de que a recarga dos freáticos não se está a realizar. Mais que nunca, importa florestar, não impermeabilizar os solos, nem construir infraestruturas em áreas sensíveis. A extracção de madeira das zonas ardidas é a maior evidência de que apresentamos os conhecimentos necessários à conservação do território, descredibilizando a importância da água e das suas respectivas dinâmicas. Não havendo água no subsolo, as nascentes e os rios vão secar e, consequentemente, os problemas da falta de água vão estar cada vez mais na ordem do dia. Esta realidade constrói-se com uma frequência assustadora, sempre que vemos anunciados os maravilhosos dias de “bom tempo” numa época em que a chuva seria a nossa melhor amiga.

Justifica-se a importância destas premissas pela necessidade de proteger as pessoas, os negócios locais e a Serra da Estrela. No fim, são muitas vezes as condições atmosféricas que impedem a massificação das pessoas nesta região e, curiosamente, as condições atmosféricas adversas têm sido, até à data, a melhor garantia de conservação das áreas sensíveis da Serra da Estrela.

 
 

 
 
 
 

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