Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2025-10-16

Terão sentido os aceiros?

Terão sentido os aceiros?

 

Palavras chave

aceiros  floresta  incendios  
 


Um conjunto de factores vieram contribuir, profundamente, para dificultar o combate aos fogos florestais: a desarticulação dos Serviços Florestais; o abandono dos campos agrícolas e da pastorícia, bem assim como a avançada idade dos que ainda resistem; o avanço inconsequente da monocultura de pinheiro bravo e eucalipto, em detrimento das espécies folhosas, como o castanheiro ou o carvalho (que constituíam um apoio importante às famílias, por exemplo, pelo fruto ou pela madeira que lhes facultavam os carvalhos, entre outros); as alterações na estratégia de combate a que não devem ter sido alheias as mortes de bombeiros nos sucessivos incêndios, as divergências perfeitamente detectáveis entre os Bombeiros e a Protecção Civil, estarão no cerne das dificuldades que estamos a observar ano após ano.

Claro que as alterações climáticas, representadas pela falta de precipitação gradual que se tem vindo a verificar, não traz benefícios a este cenário. Mas, estes, são fenómenos naturais de cariz global de uma enorme complexidade e que deveriam servir de preocupação para que se evitassem os erros que têm vindo a ser cometidos com a perda de biodiversidade, a pouca atenção à retenção de água no solo e o consequente aumento da sua erosão.

Parece-nos que as evidências dão-nos fundamentos para crer que estamos a ser rigorosos nesta análise, isto é, que os aceiros não estão a desempenhar a função para a qual foram criados, uma vez que são raras as situações em que as chamas são dominadas graças a eles.

A própria gestão que tem vindo a ser feita nos aceiros é negativa a vários níveis. Por um lado, porque os métodos que têm vindo a ser usados são mais caros, mais morosos e contribuem para a erosão desses espaços. Com efeito, a limpeza de matos nos aceiros tem sido feita através do uso de máquinas de rasto, sendo incompreensível que se retire matos com uma lâmina, acabando, depois, por retirar o pouco solo que estas áreas já têm, deixando-as no “osso”. Ora, se para o mesmo trabalho fossem utilizados tractores com destroçador de mato, o valor/ hora era diferente, o ritmo seria maior e o impacto no solo muito mais importante e interessante, já que possibilitaria a criação de solo e não, pelo contrário, eliminá-lo.

De forma adicional, há que referir o impacto de uma área completamente nua de vegetação na paisagem que, além de não trazer quaisquer proveitos económicos, ao invés, acaba constituindo uma despesa para o manter.

Tendo em atenção este conjunto de realidades, parece-nos de extrema relevância reflectir sobre o actual contexto e pensar, em particular, na utilidade e pertinência dos aceiros: devem ser mantidos tal como existem ou, por outro lado, deve pensar-se numa alternativa que possa ser mais produtiva, vantajosa economicamente, ecológica e, acreditamos, dotada de uma nova modalidade, que pudesse quebrar os fogos, aspecto a que os aceiros têm demonstrado não estar à altura.

Neste sentido, a nossa sugestão passa por substituir os aceiros por povoamentos florestais. Assim, criar-se-iam no seu lugar áreas de caducifólias com dimensões suficientes capazes de causar impacto na dinâmica das chamas, de maneira a possibilitar um combate mais eficaz. Para isso, bastaria seleccionar as espécies de acordo com o terreno e a exposição, diminuindo as áreas dos povoamentos de pinheiro e eucalipto. O tempo acabará por fazer o seu trabalho, tornando possível a criação de mais zonas de sombra, de manta morta e com mais humidade, logo, mais frescura que permitirá que os fogos não sejam tão severos nestas áreas.

Temos, na Serra da Estrela, inúmeros exemplos de como isso tem resultado com os fogos. Mas também como fonte de rendimento a vários níveis, valorização da paisagem, inclusive, a nível turístico, mais biodiversidade e uma maior capacidade de retenção de água.

Basta crer e tentar. Porque não?

 
 

 
 
 
 

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