Revista Zimbro
by Amigos da Serra da Estrela
 

2025-10-16

Se não se muda a estratégia as chamas vão continuar a ganhar

Se não se muda a estratégia as chamas vão continuar a ganhar

 

Palavras chave

estrategia  
 

De acordo com a estratégia que foi definida para os fogos, os objectivos definidos assentaram em evitar a perda de vidas humanas e materiais, dando assim prioridade à salvaguarda das aldeias e dos seus habitantes, onde os fogos lavraram.

Independentemente dos propósitos definidos e do sucesso conseguido, uma vez que apenas houve duas vítimas a lamentar, face à dimensão dos incêndios ocorridos no corrente ano, pensamos que as orientações para combater os fogos florestais terão de ser repensadas, caso contrário, iremos assistir a dinâmicas ainda mais violentas e com áreas queimadas de maiores dimensões, com todas as consequências daí resultantes.

A deslocação de meios de combate para proteger as aldeias permitiu que as chamas devorassem maior área e, quanto maior a área em chamas, mais meios serão necessários, mais recursos financeiros associados, maior desgaste no equipamento e um maior cansaço no pessoal de combate.

Tem sentido para as organizações, neste caso, para os bombeiros e corpos de sapadores florestais, concebidos com o propósito de combater incêndios, que as suas principais acções sejam consequentes com esse propósito: atacar as chamas e não aguardar que as chamas venham ter com eles. Tem assim todo o sentido que se encontrem formas de aliviar os combatentes da responsabilidade de proteger as pessoas e as aldeias, tornando possível que possam executar, com mais eficácia, a principal missão para que foram chamados – combater os fogos.

A lógica que tem vindo a ser seguida, de minimizar o potencial dos residentes nas aldeias (aqueles que melhor conhecem a zona e, até, na maior parte os casos, o comportamento dos fogos) para um papel passivo, retirando-os dos lugares que conhecem como ninguém, ou colocando orientações para os encaminhar para um lugar, à partida, mais seguro, foi, e é, na nossa opinião, um erro. Estes cidadãos devem ser intervenientes activos na resolução de todos os problemas que podem afectar as suas vidas, inclusive, o combate aos fogos. Bastará prestar-lhes mais atenção, orientá-los para um papel mais activo e, simultaneamente, seguro, principalmente, para os que tiverem boas condições físicas, porque será a melhor maneira de cooperar numa situação em que todos sairão a ganhar.

Neste sentido, achamos interessante propor algumas medidas que poderão contribuir para colmatar a falta de segurança que se tem verificado na generalidade das aldeias de montanha. São sugestões muito simples, de fácil implementação e com resultados que poderão ser testados numa qualquer povoação antes de avançar para uma escala mais abrangente.

A ideia é simples.

As aldeias de montanha estão situadas em encostas com desníveis pronunciados, campos agrícolas no seu perímetro, na sua maioria com muros de suporte de terras em pedra, o que, por si só, já constituem uma barreira à progressão das chamas. Dotando cada aldeia com um ou mais depósitos para serem utilizados como reservatórios de água, é possível criar uma rede de aspersores em todo o perímetro das aldeias, de maneira a proteger os seus aglomerados. A orografia e altitude, da generalidade dos aglomerados urbanos, permite que a água disponha de grande pressão, capaz de accionar a rede de aspersores para cobrir um diâmetro de 50/60 metros, possibilitando irrigar uma faixa de terreno suficiente e que impossibilite as chamas de atingir as casas e as pessoas.

No caso da aldeia da Teixeira, no concelho de Seia, que serviu de base ao presente texto, seria possível cobrir toda a aldeia com uma rede de 20 aspersores e uma rede com 1.000 metros de tubagem, irrigando 60 metros de largura, sendo simples criar sectores de irrigação em conformidade com a direcção e progressão das chamas, tendo em atenção a melhor gestão da água.

Por outro lado, e ao contrário do que acontece actualmente, em que se consome água para proteger as povoações, numa altura em que ela é escassa, chegando mesmo a ter de se privar os residentes de ter água para que esta possa ser disponibilizada para os bombeiros, estes depósitos poderão ser abastecidos no período em que a água é abundante. Parece-nos não haver quaisquer problemas com a água durante o período do Inverno, nas aldeias de montanha.

Uma vez instalado e testado, um investimento destes apenas precisaria que uma pessoa pudesse accionar o mecanismo de abertura do reservatório que, para o efeito, não será mais que abrir uma ou duas torneiras que farão funcionar os aspersores. Nada que seja desconhecido no mundo rural. O que será diferente, no entanto, é a função, a dimensão e a responsabilidade. Para isso, bastará que a comunidade seja chamada a participar, a hierarquia de responsabilidades definida e, pensamos, tudo poderá correr no sentido de garantir melhor e mais segurança para as aldeias de montanha da Serra da Estrela, por um baixo custo.

Chamem-se os técnicos e experimente-se numa aldeia.

 
 

 
 
 
 

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