2025-10-16

Palavras chave
incendios ordenamentoDurante o fogo de Agosto, nascido dum raio que rugiu na zona de Piódão, partilhei alguns momentos do incêndio com um amigo que tentava controlar a situação para evitar que as chamas entrassem na sua propriedade e lhe causassem prejuízos.
Num desses diálogos dizia-me, com algum espanto e preocupação, durante a descarga de água pelos aviões “epá, isto parece que incendeia ainda mais depois de passarem os aviões!” Situação idêntica já tinha acontecido comigo durante o combate a um incêndio, há muitos anos, o que me fez indagar sobre esta questão.
Fazia parte de um pequeno grupo que tentava combater um flanco do fogo, quando nos apercebemos que um pequeno avião se aproximava para largar o líquido retardante, muito usado naquela época. De imediato procurámos, todos, proteger-nos, para evitar ficar encharcados e coloridos do retardante de cor avermelhada. O voo rasante do avião é seguido do jacto do líquido retardante que fez adormecer as chamas, como se as tivesse, definitivamente, apagado. Mas não foi isso que aconteceu. Quando a situação parecia estar a melhorar, um estrondo atordoante com o desencadear de chamas enormes e violentas fizeram-nos entrar em pânico e fugir, cada um para seu canto, sem sabermos uns dos outros, já que o pavor da situação não permitia racionalidade que nos fizesse pensar em condições. As árvores metiam-se todas na minha frente sem me darem escapatória. Saí daquela situação sem saber como, tal como os outros.
Estes momentos, bem assim como a conclusão a que cheguei, reportei-os mais tarde num curso de Brigadas de Investigação de Fogos Florestais (BIFFs) que frequentei no COTF – Centro Operações e Técnicas Florestais da Lousã.
Quis perceber o que se tinha passado como habitualmente fazia quando observava a evolução das chamas nos vários cenários por onde lavravam. A minha análise não obedeceu a qualquer critério ou rigor científico e teve como único propósito poder contribuir para a experiência empírica que vivi e avaliei. Ninguém combate as chamas do lado queimado para o lado que ainda não ardeu. Foi isto que o pequeno avião fez e é assim que acontece com este tipo de aparelhos, sempre que operam em zonas montanhosas e o fogo se desenvolve em vales encaixados. Os pilotos não têm escapatória se “picarem” o avião da encosta para o vale porque a possibilidade de embater na encosta contrária é muito elevada, daí que o ataque às chamas seja feito obliquamente e, neste caso, no sentido do queimado para o combustível por arder.
De facto, na descarga, os combustíveis ficam sem oxigénio e humedecidos, quebrando as chamas. São uma questão de segundos, enquanto o avião ainda está na fase descendente. Assim que faz a descarga o avião voa no sentido em que as chamas progridem e, com a sua deslocação, cria um túnel de oxigénio que vai alimentar o fogo dando-lhe o elemento mais importante para se desenvolver, o oxigénio. Foi isto que ajuizei que tivesse acontecido no momento em que o grupo combatia um fogo na Serra da Estrela. Comparei o sucedido com a sensação que uma pessoa tem quando caminha na berma de uma estrada e cruza com ela um camião em grande velocidade que a abana com a deslocação do ar provocada pelo veículo e pela velocidade. Talvez assim seja perceptível esta ideia na prática.
Parece-me que o combate aos fogos com aviões em zonas montanhosas fora das zonas planálticas corre o risco de poder alimentar os incêndios em vez de os dominar.

O grande incêndio que despoletou de um raio na zona de Piódão, deixou marcas no território que deveriam merecer o cuidado e atenção das entidades responsáveis pelo combate ao fogos. De facto, quem percorrer o perímetro da área ardida, pode facilmente obter um conjunto de informações de como se desenvolveu o combate, nomeadamente, dos inúmeros aceiros abertos pelos bulldozers, sem qualquer utilidade, com um grande impacto na paisagem, danos patrimoniais que constituem mais um factor de erosão. Os aceiros existentes (ver texto específico nesta edição), concebidos para travar as chamas, foram, na sua maioria, ultrapassados por estas, o que me leva, uma vez mais, a apelar para que este formato para a gestão florestal possa ser equacionado, de maneira a ser mais eficiente e mais rentável economicamente.
Debruçarmo-nos sob as zonas agrícolas dá-nos um panorama esclarecedor e, aliás, bastaria analisar o caso particular dos apoios aos agricultores. As vantagens seriam muitas: o aumento de produção alimentar e de melhor qualidade; mais fixação de pessoas; e áreas tratadas que desempenhariam um papel fundamental de combate às chamas, já que sem combustível o fogo extingue-se naturalmente enquanto agente florestal.
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