2025-07-15

Palavras chave
incendiosOs Clubes Rotários da Beira Serra, promoveram no dia 9 de Maio um Seminário dedicado aos “INCÊNDIOS NA SERRA DA ESTRELA – LIÇÕES DO PASSADO E AÇÃO NO PRESENTE”.
A nossa Associação foi convidada, tendo participado a nossa associada Elsa Salzedas e o seu presidente, José Maria Saraiva, com o tema “A SERRA DAS PESSOAS OU AS PESSOAS SEM SERRA”.
Conhecendo a importância das dinâmicas sociais e das suas implicações em tudo o que envolve a Serra da Estrela e a região, a relação das pessoas com a Serra é simbiótica, na medida em que, quebrado este vínculo, perdem as pessoas e perde a Serra, “a sua Serra”.
Sobre a presença dos membros da ASE neste seminário:
Durante o debate suscitaram-se algumas dúvidas sobre as estratégias do combate ao fogo de 2022, bem assim como às alterações na forma como actualmente se faz o combate aos fogos florestais (permitam-me que continue a chamar-lhes assim), sobre as quais não pretendo pronunciar-me, mas apenas para referir que foram visíveis por quem tem acompanhado o percurso dos bombeiros, como faço, há muitas décadas.
Verifica-se alguma dificuldade que, provavelmente, advirá do estatuto de voluntário, na aceitação da crítica. Existem muitas formas de ajuizar determinado desempenho e saber interpretar esse lado positivo da intervenção cívica não é sinónimo de oposição aos bombeiros. O conjunto de casos em que morreram bombeiros e as alterações profundas nos quadros dos corpos activos dos mesmos, são situações complexas que obrigam a uma reflexão profunda dos seus dirigentes, que terão pesado nas mudanças da estratégia.
A relação entre os bombeiros e o Presidente da ASE, José Maria, é profunda e data dos anos 50. Assistiu à nascença de uma Corporação de Bombeiros vocacionada para os fogos urbanos, que depois se tornou mais interventiva nos fogos na floresta e passou pela irracionalidade que foi tentar-se ter a tutela do seu combate a nível nacional. Também aqui parece ter-se cometido erros graves, causando uma rotura terrível com a finada Direção-Geral das Florestas, quando tudo podia ter acontecido, se em vez de se ter procurado usar a força, tivesse sido o bom senso a orientar os responsáveis.
A desordem causada durante um período de tempo da nossa história dos fogos, também parece ter contribuído para que um outro mal se tenha instalado, com a introdução da Guarda Nacional República, no combate aos fogos florestais, pensando o responsável que, com tal ousadia, iria pôr ordem na “casa” e pensaria resolver a problemática dos fogos através da GNR. Num país onde 90% do potencial do combate está nos Bombeiros, tal ideia conduziu apenas à concorrência pela eficiência. Que o Comando Nacional nunca deveria estar nas mãos dos Bombeiros, é uma ideia de que os próprios já se devem ter convencido, mas não dar aos Bombeiros o mérito que por direito lhes pertence, reservando-lhes o devido destaque nos Órgãos nacionais, é não ter a percepção da sua importância estratégica e social.
Relativamente ao incêndio de 2022, que José Maria pôde acompanhar desde o seu início e depois no seu desenvolvimento um pouco por onde foi lavrando, o mesmo mantem o que então disse face ao congregar de esforços que era necessário para o dominar.
Essencialmente, na sua opinião, houve duas fases em que a falta de visão estratégica e domínio do terreno foram cruciais para o domínio das chamas:
No seu início, por não se ter procurado providenciar o combate entre a Fraga Grande e o Picoto. A expectativa de que conseguiriam quebrar as chamas na zona dos Garrochos foi fatal. Apesar de se tratar de uma zona de pinhos de baixa densidade e matos, a encosta tem um grande declive e uma autêntica chaminé para a evolução das chamas. As chamas alcançaram o alto às 13 horas, tendo ardido pela encosta durante 4/5 horas. Era óbvio que, atingindo a cumeada, teriam campo mais aberto e mais vento para lhe dar asas. Foi o que sucedeu.
Uma segunda situação deu-se na Serra de Baixo, sem árvores, mas com pasto e mato rasteiro, combustíveis mais finos que originam uma maior dinâmica, mas com outras formas de combater. Já em 2005 se tinha assistido a uma situação idêntica e a passagem da estrada pelas chamas ficou a dever-se à falta de visão, porque as pessoas até estavam bem posicionadas. A ordem, essa tal que muitas vezes é necessária para quem está no terreno e tem de tomar decisões, não chegou em 2005 como não chegou em 2022. E quando refere ordem, define-a com as linhas orientadoras: fazer o quê, onde, porquê e para quê?
Em 2005, as chamas foram paradas na descida do Gavião para a estrada do Poço do Inferno. Nessa altura, a autorização para se fazer o contrafogo que pôs termo ao incêndio, foi dada pelo responsável Distrital, na presença da Governadora Civil e do Presidente da Câmara de Manteigas. Em 2022, houve tempo para pensar na melhor forma de dominar as chamas. Apesar do vento, José Maria defende que uma série de contrafogos, simultâneos e curtos, em relação à área de contacto entre si, seria a solução mais realista. Não fazer nada, pondo culpa aos helicópteros e à volta a Portugal é o pior que se pode fazer para analisar o que aconteceu.
A partir daqui, tudo se tornou mais complexo, mais exigente na gestão dos recursos humanos, e muito mais caro. Desiludam-se ainda aqueles que acreditam que não morreu ninguém porque houve quem estivesse preocupado com isso. Neste incêndio, não se perderam vidas por milagre.
Nota pessoal do Presidente da ASE, José Maria Saraiva:
As pessoas com condições físicas e conhecedoras da zona ou região, perto dos seus bens, são cidadãos extremamente importantes para quem combate os fogos e uma excelente ajuda. Retirá-los deste espaço no momento errado pode trazer malefícios a quem combate os fogos em terreno desconhecido.
Partilho uma situação que vivi nesse incêndio e que me serviu de lição: as chamas evoluíam na direcção de Verdelhos, descendo a encosta da Serra da Galega, na direcção do ribeiro dos Castelos. Este avanço das chamas estava a preocupar as pessoas que manifestavam já alguma aflição e também os responsáveis da Câmara Municipal da Covilhã. Inúmeros canais de televisão se concentravam ali porque o pior avizinhava-se. Foi neste cenário que fui abordado por dois membros daquele executivo para dar uma opinião sobre como evitar que o fogo atingisse a povoação. Disse-lhes que não havia tempo a perder e era necessário colocar uma máquina de rasto para abrir um aceiro pela linha de festo, entre a estrada que vem da Quinta para os Picarotes e a Barragem. Em boa hora a sugestão foi aceite e ordenada. Porém, em má hora procurei tranquilizar as pessoas quando as televisões me questionaram sobre a situação. Terei dito “as pessoas podem ficar tranquilas que, em princípio, o fogo termina naquele ponto”, a tal cumeada. Quando vi que as chamas tinham ultrapassado o aceiro, não queria acreditar no que estava a ver.
Indignado com a ineficácia do aceiro, após a conclusão do incêndio, procurei as causas deste terem ultrapassado o aceiro. Foi logo à primeira vista. Nunca tinha visto tal absurdo: abrir um aceiro… aos ziguezagues!
0 Comentários